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… 10/07/1982 – Polônia 3 x 2 França

Três pontos sobre…
… 10/07/1982 – Polônia 3 x 2 França


(Imagem: Bob Thomas / Getty Images)

● Na estreia, a França sofreu com problemas internos (como detalhamos aqui) e perdeu para a Inglaterra por 3 x 1. Na segunda partida, goleou o Kuwait do técnico Carlos Alberto Parreira por 4 x 1 – em jogo em que um xeique do país árabe invadiu o campo e obrigou o árbitro a anular um gol legítimo dos gauleses. Na sequência, a França empatou com a Tchecoslováquia por 1 x 1 e se classificou em segundo lugar no Grupo D. A segunda fase foi mais tranquila. Venceu a Áustria por 1 x 0 e a Irlanda do Norte por 4 x 1. Nas semifinais, um duelo histórico com a Alemanha Ocidental, empate por 1 x 1 no tempo normal, 2 x 2 na prorrogação e perdeu por 5 x 4 na decisão por pênaltis – em uma partida que foi claramente prejudicada pela arbitragem que nada marcou em um lance que o goleiro Toni Schumacher deu uma voadora dentro da área no peito de Battiston, que o deixou desmaiado.

A Polônia tinha uma ótima seleção, com jogadores como os veteranos de 1974 Władysław Żmuda, Grzegorz Lato, Andrzej Szarmach e os de 1978 Janusz Kupcewicz e Zbigniew Boniek. Na primeira fase, foi líder em um grupo muito equilibrado. Empatou sem gols os dois primeiros jogos, com Itália e Camarões, e goleou o Peru por 5 x 1 na terceira partida. Na segunda fase, venceu a Bélgica por 3 x 0 e empatou com a União Soviética por 0 x 0. Na semifinal, perdeu para a Itália por 2 x 0 – dois gols de Paolo Rossi.


As duas equipes jogaram no sistema 4-3-3, com aproximação dos homens de meio.

● Depois da frustrante derrota para a Alemanha Ocidental, os franceses estavam totalmente desmotivados para a decisão do 3º lugar. Michel Platini nem foi para o jogo e suas palavras davam o tom da partida: “Não me importo de terminar em terceiro”.

O técnico Michel Hidalgo escalou apenas quatro jogadores que haviam enfrentado os alemães: Manuel Amoros, Marius Trésor, Gérard Janvion e Jean Tigana.

Mas Les Bleus queriam terminar a Copa com dignidade e abriram o placar aos 13′. Pela esquerda, Bruno Bellone passou entre Lato e Boniek e tocou no meio para Tigana, que deixou mais atrás para René Girard. Ele dominou, avançou e bateu fraco e rasteiro, mas a bola foi no cantinho direito do goleiro e tocou na trave antes de entrar.

O técnico polonês Antoni Piechniczek deu uma chance a Andrzej Szarmach, o escalando como titular contra a França depois de deixá-lo o torneio inteiro no banco de reservas. E o experiente camisa 17 retribuiu a confiança de seu treinador, empatando a partida aos 40′. Boniek avançou pelo meio e deu um passe por elevação para Szarmach nas costas de Trésor. Ele surgiu atrás da defesa e, já dentro da área, deixou a bola quicar e chutou cruzado. Ela ainda bateu na trave antes de entrar. Um golaço, desde a construção até a definição da jogada. Zbigniew Boniek fez muita falta na semifinal diante da Itália, quando cumpriu suspensão.


(Imagem: Przegląd Sportowy / DPA / PAP)

No último minuto do primeiro tempo, Kupcewicz bateu escanteio. O goleiro francês Jean Castaneda saiu muito mal e não conseguiu cortar – ele calculou mal a saída do gol. Stefan Majewski apareceu atrás dele para mandar para o gol vazio. Era o segundo gol e a virada polaca. Um presente de Castaneda.

A Polônia aproveitou a empolgação logo no início do segundo tempo e fez o terceiro gol em apenas seis minutos. Logo depois da volta do intervalo, Janvion fez falta em Boniek no lado esquerdo do ataque, próximo à área. Mesmo sem muito ângulo, Kupcewicz bateu a falta direto para o gol. O goleiro tentou adivinhar, esperando o cruzamento, mas a bola foi no cantinho direito, no pé da trave, e Castaneda não conseguiu alcançar. Duas falhas clamorosas do goleiro Jean Castaneda.

A França ainda tentou reagir e diminuiu o placar aos 27′. Christian Lopez, que havia entrado no lugar de Janvion, iniciou a jogada. Philippe Mahut encontrou o incansável Tigana na meia direita. E ele fez um lançamento perfeito, encontrando Alain Couriol dentro da área, na segunda trave. Ele só dominou e tocou por baixo do goleiro Józef Młynarczyk.

Derrotada, a França não conseguiu igualar seu melhor desempenho em Copas do Mundo até então, quando ganhou o bronze em 1958. Mesmo com a derrota, os franceses receberam o maior prêmio em dinheiro entre todas as seleções do Mundial, pago por sua federação.

Por sua vez, a Polônia repetia o brilhante 3º lugar do Mundial de 1974.


(Imagem: Pinterest)

FICHA TÉCNICA:

 

POLÔNIA 3 x 2 FRANÇA

 

Data: 10/07/1982

Horário: 20h00 locais

Estádio: José Rico Pérez

Público: 28.000

Cidade: Alicante (Espanha)

Árbitro: António Garrido (Portugal)

 

POLÔNIA (4-3-3):

FRANÇA (4-3-3):

1  Józef Młynarczyk (G)

21 Jean Castaneda (G)

2  Marek Dziuba

2  Manuel Amoros

9  Władysław Żmuda

7  Philippe Mahut

5  Paweł Janas

8  Marius Trésor (C)

10 Stefan Majewski

5  Gérard Janvion

13 Andrzej Buncol

14 Jean Tigana

8  Waldemar Matysik

11 René Girard

3  Janusz Kupcewicz

13 Jean-François Larios

16 Grzegorz Lato

16 Alain Couriol

20 Zbigniew Boniek

15 Bruno Bellone

17 Andrzej Szarmach

20 Gérard Soler

 

Técnico: Antoni Piechniczek

Técnico: Michel Hidalgo

 

SUPLENTES:

 

 

22 Piotr Mowlik (G)

22 Jean-Luc Ettori (G)

21 Jacek Kazimierski (G)

1  Dominique Baratelli (G)

4  Tadeusz Dolny

4  Maxime Bossis

12 Roman Wójcicki

3  Patrick Battiston

6  Piotr Skrobowski

6  Christian Lopez

7  Jan Jałocha

9  Bernard Genghini

14 Andrzej Pałasz

12 Alain Giresse

15 Włodzimierz Ciołek

10 Michel Platini

18 Marek Kusto

17 Bernard Lacombe

19 Andrzej Iwan

18 Dominique Rocheteau

11 Włodzimierz Smolarek

19 Didier Six

 

GOLS:

13′ René Girard (FRA)

40′ Andrzej Szarmach (POL)

44′ Stefan Majewski (POL)

46′ Janusz Kupcewicz (POL)

72′ Alain Couriol (FRA)

 

CARTÕES AMARELOS:

62′ Andrzej Buncol (POL)

71′ Roman Wójcicki (POL)

79′ Gérard Soler (FRA)

 

SUBSTITUIÇÕES:

INTERVALO Waldemar Matysik (POL) ↓

Roman Wójcicki (POL) ↑

 

65′ Gérard Janvion (FRA) ↓

Christian Lopez (FRA) ↑

 

82′ Jean Tigana (FRA) ↓

Didier Six (FRA) ↑

Gols da partida:

 

… 25/06/1982 – Alemanha Ocidental 1 x 0 Áustria

Três pontos sobre…
… 25/06/1982 – Alemanha Ocidental 1 x 0 Áustria

“A vergonha de Gijón”


(Imagem: Werek / DPA / Corbis)

● Esse jogo é conhecido no idioma alemão como “Nichtangriffspakt von Gijón” (“Pacto de não-agressão de Gijón”) ou “Schande von Gijón” (“Vergonha de Gijón”). No resto do mundo, basta falar “Jogo da Vergonha”.

Essa partida foi a última da terceira rodada do Grupo 2, pois Argélia e Chile haviam se enfrentado no dia anterior, com vitória dos argelinos por 3 x 2. Com isso, alemães e austríacos entraram em campo no dia 25/06/1982 sabendo antecipadamente do que precisariam para que ambas as equipes conseguissem a classificação.

A Argélia tinha 4 pontos e nenhum gol de saldo e isso não mudaria. A Áustria tinha 4 pontos e três gols de saldo. A Alemanha tinha dois pontos e dois gols de saldo. Como a vitória valia dois pontos, bastaria a Alemanha vencer por um ou dois gols de diferença que se classificaria juntamente com a Áustria justamente pelo critério de saldo de gols. Ou seja, bastaria que as duas seleções “combinassem” um placar que fosse bom para ambas. Conhecendo o histórico das “estratégias” dos alemães, é lógico que fariam algo assim.


(Imagem: Impromptuinc)

● As duas seleções estavam no mesmo Grupo nas eliminatórias europeias, juntamente com Bulgária, Albânia e Finlândia. A Alemanha Ocidental venceu as duas vezes: 2 x 0 em Hamburgo e 3 x 1 em Viena. A Alemanha terminou como líder, com 100% de aproveitamento, oito vitórias em oito jogos, 33 gols marcados e apenas três sofridos. A Áustria ficou em segundo no grupo, com dois pontos a mais que a Bulgária. Em oito partidas, os austríacos venceram cinco, empataram um (com a Bulgária, em Sófia) e perderam as duas vezes para os alemães. Marcaram 16 gols e sofreram seis.

Um mês depois de garantir a qualificação para o Mundial, a Federação Austríaca demitiu o técnico Karl Stotz e convidou para o cargo o então técnico do Hamburgo, o também austríaco Ernst Happel. Por ter contrato vigente com o clube alemão, ele precisava ser liberado pela Bundesliga para aceitar o convite. O presidente da Bundesliga disse então que se Alemanha e Áustria fossem sorteadas no mesmo grupo da Copa, o técnico não seria liberado. E foi justamente o que aconteceu. O assistente de Stotz, Georg Schmidt foi promovido como um dos técnicos da seleção, juntamente com Felix Latzke.

A Alemanha Ocidental vinha credenciada pelo título da Europa em 1980. Não contava com Bernd Schuster (que preferiu passar as férias com a esposa do que disputar o Mundial), mas tinha jogadores como o ex-lateral e agora meia Paul Breitner, o meia Felix Magath e o atacante Karl-Heinz Rummenigge.

A Áustria também tinha um bom time, com destaques para o goleiro Friedrich Koncilia, o zagueiro e capitão Erich Obermayer, o meia Herbert Prohaska e os atacantes Walter Schachner e Hans Krankl.


(Imagem: Futebol na Veia)

● Na ocasião, o equilíbrio entre os dois vizinhos era enorme. Em quatro confrontos, eram duas vitórias para cada lado. O primeiro jogo foi nos Jogos Olímpicos de 1912, em Estocolmo, e os austríacos venceram por 5 x 1. Os outros três duelos foram em Copas do Mundo. Na decisão do 3º lugar de 1934, a Alemanha venceu por 3 x 2. Nas seminais de 1954, goleada alemã por 6 x 1.

Na segunda fase do Mundial anterior, em 1978, a Áustria tinha feito um jogo duríssimo, vencendo a Alemanha Ocidental por 3 x 2, o que tirou de vez os germânicos da final da Copa. Assim, a rivalidade entre os dois países vizinhos teoricamente estava aflorada. Todos esperavam uma revanche, mas…

Tudo começou quando a Alemanha Ocidental perdeu na estreia para a Argélia por 2 x 1, com gols de Rabah Madjer e Lakhdar Belloumi. Foi a primeira vitória de uma seleção africana sobre uma europeia na história das Copas. Na segunda partida, a Nationalelf venceu o Chile por 4 x 1.

Em suas duas primeiras partidas, a Áustria venceu o Chile por 1 x 0 e a Argélia por 2 x 0. Estava praticamente classificada. Só seria eliminada em caso de derrota por três ou mais gols de diferença.


A Alemanha Ocidental jogou no esquema 4-3-3.


A Áustria foi escalada no sistema 4-4-2.

● Assim que rolou a bola, a Alemanha começou a pressionar em busca do gol.

E ele aconteceu logo aos 10′. Pierre Littbarski cruzou da esquerda e Horst Hrubesch se antecipou ao goleiro Koncilia e desviou para o gol.

A torcida vibrou pelo começo triunfal da Nationalelf. Pelo nível que os teutônicos impuseram no início, muitos esperavam até uma goleada.

Mas foi só isso. Com o placar resolvido e a classificação de ambos encaminhada, os dois times trataram de manter a posse de bola, trocando passes infrutíferos no meio de campo e na defesa até expirar o tempo regulamentar e o juiz dar o apito final.

Em certo momento, o árbitro escocês Bob Valentine parou o jogo para chamar os capitães dos dois times e pedir a eles que orientassem seus companheiro a jogarem futebol. Mas de nada adiantou o pedido do juiz.

Foram 80 minutos de pura procrastinação em campo.

O máximo que houve foram dois chutes ao gol, de Felix Magath e Karl-Heinz Rummenigge. Ambos resultaram em defesas fáceis do goleiro Friedrich Koncilia.

Pelo lado austríaco, Walter Schachner era o mais inquieto, mas não produziu chances de gol.

Não demorou para os 41 mil presentes no estádio El Molinón começasse a vaiar e a gritar “Argélia, Argélia”. Foram ouvidos também os gritos de “fora, fora” e “beija, beija” – como se as seleções dos dois países vizinhos fossem “namoradinhos”.

Enquanto isso, os argelinos sofriam com a sensação de impotência. Estavam vendo sua seleção ser eliminada em um “jogo de compadres” e nada podiam fazer. Alguns argelinos que estavam na arquibancada tentaram invadir o gramado diversas vezes, mas não tiveram sucesso.

Muitas pessoas, especialmente argelinos, também mostravam dinheiro para os atletas e até atiravam moedas.

Antes mesmo do apito final, já era possível ver dirigentes dos dois países comemorando a “vitória”.

Na TV, o comentarista alemão Eberhard Stanjek se recusou a seguir trabalhando na partida por mais tempo. Seu colega austríaco Robert Seeger lamentou o “espetáculo” e pediu aos telespectadores que desligassem seus televisores para não dar audiência àquela vergonha.

E houve uma cena marcante: torcedor alemão, inconformado com a postura dos atletas em campo, queimou a bandeira de seu país.


(Imagem: UOL)

● No dia seguinte, um jornal de Gijón publicou a crônica dessa partida nas páginas policiais e não nas esportivas. O jornal alemão Bild estampou em sua manchete: “Passamos, mas que vergonha” e no também alemão Der Spiegel a capa dizia tudo: “Alemanha e Áustria enganam o público”.

Os argelinos chegaram a entrar com pedido de anulação do resultado na FIFA, que nada fez.

Na segunda fase, pelo Grupo 4, a Áustria perdeu para a França por 1 x 0, empatou com a Irlanda do Norte por 2 x 2 e foi eliminada.

Classificada em primeiro lugar da chave na primeira fase, a Alemanha disputou a fase de quartas de final no Grupo 2. Empatou sem gols com a Inglaterra e venceu a Espanha por 2 x 1. Nas semifinais, em um jogo de altíssimo nível, intensidade e polêmica, venceu a ótima França de Platini por 5 x 4 nos pênaltis, depois de empate por 1 x 1 no tempo normal e 2 x 2 na prorrogação. Na final, perdeu para a Itália por 3 x 1 e ficou com o vice-campeonato.

Anos mais tarde, alguns jogadores falaram sobre a partida. O austríaco Walter Schachner comentou que não sabia porque seus companheiros não corriam para marcar e demoravam para passar a bola: “Eu mesmo só soube depois, quando reclamei com o técnico que ninguém me passava a bola”. O alemão Hans-Peter Briegel disse que após o gol os dois times combinaram de fazer um jogo leve para que ninguém se machucasse. O goleiro Harald Schumacher negou qualquer tipo de combinação.

A partir de então, a entidade máxima do futebol decidiu que as duas partidas da rodada final da fase de grupos seriam jogadas simultaneamente, para que não se repita nada semelhante à “Vergonha de Gijón”.


(Imagem: Twitter @lbertozzi)

FICHA TÉCNICA:

 

ALEMANHA OCIDENTAL 1 x 0 ÁUSTRIA

 

Data: 25/06/1982

Horário: 17h15 locais

Estádio: El Molinón

Público: 41.000

Cidade: Gijón (Espanha)

Árbitro: Bob Valentine (Escócia)

 

ALEMANHA OCIDENTAL (4-3-3):

ÁUSTRIA (4-4-2):

1  Harald Schumacher (G)

1  Friedrich Koncilia (G)

20 Manfred Kaltz

2  Bernd Krauss

15 Uli Stielike

3  Erich Obermayer (C)

4  Karlheinz Förster

5  Bruno Pezzey

2  Hans-Peter Briegel

4  Josef Degeorgi

6  Wolfgang Dremmler

19 Heribert Weber

3  Paul Breitner

10 Reinhold Hintermaier

14 Felix Magath

8  Herbert Prohaska

11 Karl-Heinz Rummenigge (C)

6  Roland Hattenberger

9  Horst Hrubesch

9  Hans Krankl

7  Pierre Littbarski

7  Walter Schachner

 

Técnico: Jupp Derwall

Técnicos: Felix Latzke / Georg Schmidt

 

SUPLENTES:

 

 

22 Eike Immel (G)

22 Klaus Lindenberger (G)

21 Bernd Franke (G)

21 Herbert Feurer (G)

12 Wilfried Hannes

12 Anton Pichler

19 Holger Hieronymus

13 Max Hagmayr

5  Bernd Förster

16 Gerald Messlender

17 Stephan Engels

17 Johann Pregesbauer

18 Lothar Matthäus

14 Ernst Baumeister

10 Hansi Müller

11 Kurt Jara

13 Uwe Reinders

15 Johann Dihanich

16 Thomas Allofs

18 Gernot Jurtin

8  Klaus Fischer

20 Kurt Welzl

 

GOL: 10′ Horst Hrubesch (ALE)

 

CARTÕES AMARELOS:

32′ Reinhold Hintermaier (AUT)

74′ Walter Schachner (AUT)

 

SUBSTITUIÇÕES:

66′ Karl-Heinz Rummenigge (ALE)

Lothar Matthäus (ALE) ↑

 

69′ Horst Hrubesch (ALE) ↓

Klaus Fischer (ALE) ↑

Gol da partida:

… Lothar Matthäus, o “Mr. Copa”

Três pontos sobre…
… Lothar Matthäus, o “Mr. Copa”


(Imagem: DFB)

Mesmo tendo pendurado as chuteiras há mais de vinte anos, ele ainda detém alguns dos recordes no futebol.

É o jogador que disputou mais partidas em Copas do Mundo (25).
É um dos poucos a disputarem cinco edições do Mundial (juntamente com os mexicanos Antonio Carbajal e Rafa Márquez e o italiano Gianluigi Buffon).
É o alemão que mais disputou partidas pela sua seleção (150 partidas, entre 1980 e 2000).
Foi eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA na primeira edição do prêmio, em 1991.
Também eleito Bola de Ouro pela revista France Football em 1990.
Eleito em 2020 para o Dream Team da Bola de Ouro como um dos melhores meio-campistas defensivo da história.
Foi o capitão e líder da seleção alemã que levantou a taça da Copa de 1990.
Venceu quase todos os títulos possíveis. Só a UEFA Champions League lhe escapou (já nos acréscimos, em 1998/99).

Às vezes ele é subvalorizado pela mídia e pelos torcedores atuais, que pouco o viram jogar. Mas Matthäus era o jogador completo, vanguardeiro, um dos primeiros “box to box”, que liderava a marcação e o sistema defensivo, mas também aparecia no ataque para fazer seus vários gols – especialmente em chutes potentes e certeiros de fora da área.

Era um dos nomes mais impactantes de sua época. Tanto que é notável a quantidade exponencial de “Matheus” com menos de 35 anos. Homenagem mais do que justa.

Hoje esse craque completa 60 anos. Parabéns, capitão.


(Imagem: Twitter @BarcaUniversal)

… 11/07/1982 – Itália 3 x 1 Alemanha Ocidental

Três pontos sobre…
… 11/07/1982 – Itália 3 x 1 Alemanha Ocidental


(Imagem: Getty Images)

● A decisão da Copa do Mundo de 1982 foi entre as bicampeãs Itália e Alemanha Ocidental. Quem vencesse, se tornaria tricampeão e igualaria o número de títulos da Seleção Brasileira.

Havia também uma disputa particular pela artilharia, já que Paolo Rossi e Karl-Heinz Rummenigge tinham cinco gols cada.

O árbitro brasileiro Arnaldo Cezar Coelho se tornou o primeiro não-europeu a apitar uma final de Copa do Mundo.


(Imagem: Imortais do Futebol)

● Na estreia, a Alemanha Ocidental perdeu por 2 x 1 para a surpreendente Argélia, de Rabah Madjer e Lakhdar Belloumi. Se recuperou na rodada seguinte ao bater o Chile por 4 x 1. Na terceira partida, protagonizou o jogo mais vergonhoso da história das Copas, um jogo de compadres, ao vencer a Áustria por 1 x 0, no único placar possível para classificar as duas seleções e eliminar os argelinos. Essa partida ficou conhecida como “Jogo da Vergonha” ou “A Vergonha de Gijón”. Na fase seguinte, venceu a Espanha, dona da casa, por 2 x 1 e empatou sem gols com a Inglaterra – o suficiente para garantir a vaga entre os quatro primeiros. Na semifinal, esteve perto de perder da França na prorrogação mas, após empate por 3 x 3, venceu nos pênaltis por 5 x 4. Mais uma de muitas decisões para os alemães.

Com esse mesmo time base, a Alemanha havia conquistado o título da Eurocopa de 1980. A principal ausência era o meia Bernd Schuster, do Barcelona. Com apenas 20 anos, era talentoso, mas sua presença dividia o elenco. Ele pediu dispensa da delegação pouco antes da Copa de 1982. Só depois se soube o motivo: ele preferiu passar mais tempo de férias com a esposa Gaby Lehman, dez anos mais velha que ele e famosa por ter pousado nua para a revista Stern. Schuster se aposentaria de vez da Nationalelf em 1984, com apenas 25 anos.


(Imagem: Bob Thomas / Getty Images / FIFA)

● Na fase de grupos, a Itália se classificou como segunda colocada do Grupo 1, com três empates: Polônia (0 x 0), Peru (1 x 1) e Camarões (1 x 1). Só se classificou porque fez um gol a mais que Camarões (que também empatou três vezes). Na primeira partida do grupo C das quartas de final, veio a primeira vitória: sobre a então campeã mundial Argentina por 2 a 1. Na sequência, derrubou o favorito Brasil por 3 a 2. Nas semifinais, venceu por 2 a 0 a forte Polônia, desfalcada de Zbigniew Boniek – suspenso pelo segundo cartão amarelo.

Enzo Bearzot não podia contar com Giancarlo Antognoni, o cérebro do time no meio campo. As opções seriam o reserva imediato Giuseppe Dossena, mas ele ainda não havia estreado na Copa e estava sem ritmo. Franco Causio mexeria muito no ataque e Bruno Conti acabaria sacrificado por jogar por dentro. A escolha mais natural era escalar o volante Gianpiero Marini e adiantar Marco Tardelli para ser o armador do time. Mas, Claudio Gentile de volta ao time e o jovem zagueiro Giuseppe Bergomi, de 18 anos, normalmente voltaria ao banco de reservas. Surpreendentemente, o treinador preferiu manter Bergomi no time, fortalecendo o sistema defensivo para liberar mais o meio de campo como um todo.

Havia também uma mudança de visual. Gentile não havia atuado na semifinal diante da Polônia e entrou em campo sem seu vasto bigode, raspado na véspera. Como tinha feito em toda a fase final, ele era responsável pela marcação individual no craque adversário – no caso, em Rummenigge. Curiosamente, Gentile era nascido na Líbia, uma ex-colônia italiana.


A Itália jogava no “4-4-2 italiano”, com um líbero atrás da defesa. O lateral esquerdo apoiava, enquanto o ponta direita recuava para fechar os espaços. Atacava no 3-4-3 e se defendia no 4-5-1.

A Itália fazia a chamada “zona mista”, combinando a marcação individual na defesa e a marcação por zona no meio de campo. O sistema era uma espécie de 4-4-2 adaptado e era imutável, rígido há alguns anos.

O time era formado por quatro defensores: um líbero (Scirea) atrás de dois zagueiros mais centralizados (Gentile, o centrale, mais à direita, e Collovati, o stopper, mais à esquerda) e um lateral mais ofensivo (chamado terzino fluidificante, que era Cabrini, pela esquerda, com liberdade para avançar. O meio de campo tinha outras quatro funções: o mediano (uma espécie de volante, que normalmente era Oriali, mas nessa partida foi Bergomi); o centrocampista centrale (que marcava e armava, uma espécie de box-to-box, que geralmente era Tardelli, mas que na decisão foi Oriali); o regista ou fantasista (o meia mais criativo, que era a função de Antognoni, mas na decisão foi de Tardelli) e o ala tornante que jogada do lado contrário do lateral ofensivo (era uma espécia de ponta que voltava para ajudar a marcação e organização ofensiva, que era Bruno Conti, pela direita). Dois eram os homens de ataque: o centravanti (homem de área, Paolo Rossi) e o seconda punta (que voltava para marcar o lateral rival, função de Graziani).


A Alemanha Ocidental do técnico Jupp Derwall atuava em um falso 4-4-2 em um misto de 3-5-2. O lateral esquerdo Bernd Förster fazia o papel de um terceiro zagueiro, a fim de liberar o outro lateral, Kaltz, que apoiava um pouquinho mais pela direita, fazendo o contra-peso do meia esquerda Briegel. Dremmler ficava mais na marcação e Paul Breitner era o “todo-campista” indo de área a área. Littbarski ocupava as pontas e o centroavante era Klaus Fischer. O craque Rummenigge tinha liberdade para flutuar no ataque.

● O rei Juan Carlos I, da Espanha, era o convidado de honra dentre os 90 mil presentes no estádio Santiago Bernabéu, em Madrid, para a 12ª final de Copa do Mundo. Pela sexta vez na história, era uma final com duas seleções europeias.

A Itália chegava com muita moral, após eliminar Argentina e Brasil, os dois principais favoritos ao título. Os alemães chegavam bem desgastados depois de uma difícil prorrogação diante da França. E historicamente, o time italiano sempre foi carrasco dos alemães no futebol.

O técnico alemão Jupp Derwall escalou um time mais ofensivo. Tirou o apagado Felix Magath e trouxe de volta o capitão Karl-Heinz Rummenigge, mesmo em más condições físicas. Ele não poderia prescindir de seu craque em um momento decisivo.

O início do jogo foi truncado, um verdadeiro duelo tático entre ambas as equipes.

Logo nos primeiros minutos, Littbarski escapou dos carrinhos de Gentile e Tardelli, tocou para Klaus Fischer fazer o pivô, cortar a marcação de Collovati e tocar para o meio. Na meia-lua, Littbarsli dominou com a direita e bateu de esquerda, mas Dino Zoff agarrou a bola sem dar rebote.

Paul Breitner lançou a bola para a área, Rumennigge dominou e girou, mas mandou para fora.

Ainda no começo do jogo, Francesco Graziani caiu sobre o ombro direito que havia lesionado durante a semifinal e teve que sair logo aos sete minutos de partida para a entrada de Alessandro Altobelli.

Bergomi chutou de longe, mas a bola foi por cima, sem assustar o goleiro Schumacher.

Aos 25,’ Marco Tardelli abriu na esquerda para Antonio Cabrini, que deixou para Altobelli cruzar na área. Briegel subiu empurrando Bruno Conti e Arnaldo marcou pênalti. Cabrini bateu cruzado no canto esquerdo de Schumacher, mas mandou para fora. Esse foi o terceiro pênalti marcado na história das finais de Copa e até hoje é o único desperdiçado.

“Mudei de ideia no último momento e cometi um erro. Olhei para o lado esquerdo, mas o goleiro pendeu nesse sentido. Bati mais aberto e fui mal.” ― Antonio Cabrini

Oriali foi derrubado por Uli Stielike na entrada da área. Bruno Conti cobrou a falta e chutou forte, mas no centro do gol, facilitando a defesa para Schumacher.

Rummenigge dominou pelo alto e ajeitou para Dremmler, mas ele chutou por cima do gol.

No intervalo, Bearzot tentou levantar a moral de sua equipe, que estava sem Antognoni e Graziani e ainda havia perdido um pênalti. A insegurança não podia tomar conta da Azzurra naquele momento.


(Imagem: Imortais do Futebol)

● O início do segundo tempo foi muito pegado, com os dois times parando muito o jogo com seguidas faltas.

Aos 12 minutos do segundo tempo, Rummenigge fez falta em Gabriele Oriali. Marco Tardelli cobrou rápido com Claudio Gentile na direita e ele cruzou à meia altura para a área. A bola passou por Altobelli, mas Paolo Rossi se antecipou a Kaltz e completou de joelho para o gol. Era o sexto gol de Il Bambino d’Oro na Copa de 1982. Os milhares de tifosi começaram a sonhar com o tricampeonato.

A Alemanha Ocidental buscava o empate e o treinador mandou seu time ao ataque, trocando o volante Wolfgang Dremmler pelo gigante atacante Horst Hrubesch.

Em cobrança de falta da direita, Kaltz cruzou e Zoff saiu catando borboletas, mas Briegel não conseguiu aproveitar.

Briegel passou por Bruno Conti e cruzou da esquerda. A bola bateu em Collovati dentro da pequena área, mas o goleiro Zoff pegou firme.

Aos 24′, Rummenigge tocou para Paul Breitner pelo meio, mas Rossi roubou a bola e o grande Gaetano Scirea avançou em velocidade na transição, como se deve fazer um líbero de verdade. Ele deixou com Bruno Conti, que cortou da direita para o meio. Rossi abriu na direita para Scirea que caiu pela ponta. Ele tocou de calcanhar para Bergomi, recebeu de volta e rolou para Marco Tardelli na entrada da área. O camisa 14 não dominou bem e deixou a bola escapar, mas, mesmo caindo, chutou forte de esquerda, no canto esquerdo do goleiro Harald Schumacher. Tardelli marcou e saiu comemorando em delírio. Uma das imagens mais marcantes de todas as Copas.


(Imagem: Getty Images / FIFA)

“A sensação de fazer um gol como aquele não tem como contar. Apenas sentir. Aquele grito que apareceu na televisão foi como uma libertação. Era um sonho marcar numa final. Também me senti libertado de certas pessoas, que sempre nos criticavam. Foi como se estivéssemos em guerra contra eles. Mas ganhamos no final. E todos tiveram de celebrar com a gente. Gritaram como eu. E devem ter ficado sem ar como eu também quase fiquei.” ― Marco Tardelli

“O protocolo mandava ficar sentado na cadeira, no máximo batendo palmas. Era o que estava fazendo o rei da Espanha ao meu lado, e ao lado do chanceler alemão, todo triste. Mas como eu iria me segurar com um gol daquele? Eu tinha mais é de levantar e comemorar como qualquer italiano estava fazendo!” ― Sandro Pertini, presidente da Itália, que vibrou bastante nas tribunas.

A velocidade italiana foi demais para os desgastados alemães. Logo depois do gol, o técnico Jupp Derwall tirou o baleado Rummenigge para colocar em campo Hansi Müller e sua habilidosa perna esquerda.

O líbero Uli Stielike puxou contra-ataque e foi derrubado por trás por Oriali. Stielike levantou desorientado e partiu para cima do italiano. Arnaldo deu um cartão amarelo justo a Orialli, mas nada sossegou o alemão, que ficou o jogo todo tentando intimidar o árbitro brasileiro.

Aos 36′, a Squadra Azzurra fez o terceiro gol e praticamente matou o jogo e definiu o título. Em um contra-ataque, Bruno Conti avançou sozinho pela direita, entrou na área e rolou para a marca do pênalti. Altobelli dominou, driblou o afobado goleiro Schumacher, que saiu aos seus pés, e chutou de esquerda, já caindo. Um belo gol de Altobelli, seu primeiro e único no Mundial.

Na saída de bola Littbarski cruzou da direita e Hrubesch cabeceou fraco em cima de Zoff.

Os alemães descontaram dois minutos depois. Manfred Kaltz deixou com Uli Stielike pelo meio e ele abriu com Hans-Peter Briegel na esquerda. O Panzer (tanque de guerra alemão) ganhou no corpo de Bruno Conti, o acertando de forma involuntária com o cotovelo, e o italiano respondeu com um carrinho por trás no alemão. Falta do lado esquerdo da área, quase um mini escanteio para a Alemanha. Hansi Müller cruzou para a área, a bola passou por Collovati e Gentile afastou mal, para o meio da área. Paul Breitner emendou um voleio cruzado, de primeira, e mandou no cantinho direito de Zoff.

Breitner se tornou um dos raros jogadores a marcar gols em duas finais de Copas diferentes, pois já havia marcado de pênalti na decisão de 1974, em vitória por 2 x 1 sobre a Holanda de Johan Cruijff. Apenas Vavá, Pelé e Zinedine Zidane repetiram o feito.

Mas o alemão nem comemorou esse gol. A partida estava no fim e a vantagem italiana era muito grande até para os alemães.

Bearzot ainda teve tempo para homenagear Franco Causio, um de seus jogadores prediletos e um dos líderes do elenco. Ele entrou em campo no lugar de Altobelli, que já tinha entrado no início da partida.

E a Squadra Azzurra terminou a partida tocando a bola sob o ritmo tradicional do olé espanhol.

No fim da partida, o árbitro Arnaldo Cezar Coelho se meteu no meio de um passe dos italianos, agarrou a bola e a levantou antes de apitar, como se fosse um troféu. O brasileiro teve uma das melhores arbitragens de uma final de Copa até hoje. A bola do jogo é considerada por ele como seu maior troféu.


(Imagem: Getty Images / FIFA)

● A Itália se sagrava tricampeã do mundo, vencendo 44 anos depois de seu último título. A Azzurra tinha erguido duas vezes a antiga Taça Jules Rimet e agora levantava com justiça o novo troféu da Copa do Mundo. O time treinado por Enzo Bearzot tinha jogadores de alto nível, mas o maior destaque nesse título foi o espírito de luta dos italianos.

Para Enzo Bearzot, o resultado era uma vitória pessoal. Durante anos ele vinha tentando tirar a sua seleção de campanhas medianas e agora a colocou de volta ao topo do mundo.

Por incrível que pareça, era a ressurreição de dois heróis italianos. O goleiro e capitão Dino Zoff havia sido bastante criticado não só pela idade elevada, mas por ter tomado um gol de Nelinho na decisão do 3º lugar da Copa de 1978, diante do Brasil. Zoff se tornou o jogador mais velho a conquistar uma Copa do Mundo, com 40 anos e 133 dias.

Já Paolo Rossi, estava há dois anos sem jogar. Envolvido no escândalo da loteria esportiva italiana, em 1980, ele foi suspenso por três anos, mas teve a pena revogada em abril de 1982. Ou seja, ele voltou a jogar apenas dois meses antes do Mundial. Para piorar mais o clima, a imprensa italiana criou o boato que ele e Antonio Cabrini tinham uma relação homossexual, que fez os atletas romperem de vez com os veículos de comunicação e não darem mais entrevistas. Mas o atacante foi bancado pelo técnico Bearzot mesmo fora de forma e abaixo do peso. Ele passou os quatro primeiro jogos sem marcar gols, mas desencantou contra o Brasil com três, fez dois diante da Polônia e abriu o placar contra os alemães. Paolo Rossi conseguiu um feito que jamais foi repetido: foi campeão, artilheiro e eleito o melhor jogador da competição.

Curiosamente, apenas a Itália de 1938 e 1982 e a Alemanha Ocidental em 1990 foram campeãs do mundo sem ficar em nenhum momento atrás no marcador, em nenhuma partida.

“Vai ser difícil explicar como uma seleção tão ruim foi campeã.” ― Bruno Conti, ironizando os críticos da Azzurra.

“Estávamos totalmente convencidos de que poderíamos chegar até a final e sair de campo vencedores. Jogamos tranquilos a decisão em Madri. O mérito disso é de Enzo Bearzot, homem extraordinário e um talentoso treinador. Ele nos ensinou como perseverar e seguir um objetivo.” ― Dino Zoff

“Nós não éramos presunçosos, e, sim, confiantes. No futebol, não vence quem é forte – forte é quem vence. Tínhamos certeza que ganharíamos a Copa depois de passar pela Polônia. Estávamos tão certos porque estávamos em ótima forma física e mental. A Alemanha, em contrapartida, não estava tão bem. Vinha cansada da prorrogação contra a França.” ― Claudio Gentile

“A vitória contra o Brasil criou uma aura em torno da equipe. Sentíamos que éramos os melhores.” ― Paolo Rossi


(Imagem: Getty Images / FIFA)

FICHA TÉCNICA:

 

ITÁLIA 3 x 1 ALEMANHA OCIDENTAL

 

Data: 11/07/1982

Horário: 20h00 locais

Estádio: Santiago Bernabéu

Público: 90.000

Cidade: Madri (Espanha)

Árbitro: Arnaldo Cézar Coelho (Brasil)

 

ITÁLIA (4-4-2):

ALEMANHA OCIDENTAL (4-4-2):

1  Dino Zoff (G)(C)

1  Harald Schumacher (G)

6  Claudio Gentile

20 Manfred Kaltz

5  Fulvio Collovati

4  Karlheinz Förster

7  Gaetano Scirea

15 Uli Stielike

4  Antonio Cabrini

5  Bernd Förster

3  Giuseppe Bergomi

6  Wolfgang Dremmler

13 Gabriele Oriali

2  Hans-Peter Briegel

14 Marco Tardelli

3  Paul Breitner

16 Bruno Conti

7  Pierre Littbarski

20 Paolo Rossi

8  Klaus Fischer

19 Francesco Graziani

11 Karl-Heinz Rummenigge (C)

 

Técnico: Enzo Bearzot

Técnico: Jupp Derwall

 

SUPLENTES:

 

 

12 Ivano Bordon (G)

21 Bernd Franke (G)

22 Giovanni Galli (G)

22 Eike Immel (G)

2  Franco Baresi

12 Wilfried Hannes

8  Pietro Vierchowod

19 Holger Hieronymus

10 Giuseppe Dossena

17 Stephan Engels

11 Gianpiero Marini

18 Lothar Matthäus

9  Giancarlo Antognoni

14 Felix Magath

15 Franco Causio

10 Hansi Müller

21 Franco Selvaggi

13 Uwe Reinders

17 Daniele Massaro

16 Thomas Allofs

18 Alessandro Altobelli

9  Horst Hrubesch

 

GOLS:

57′ Paolo Rossi (ITA)

69′ Marco Tardelli (ITA)

81′ Alessandro Altobelli (ITA)

83′ Paul Breitner (ALE)

 

CARTÕES AMARELOS:

31′ Bruno Conti (ITA)

61′ Wolfgang Dremmler (ALE)

73′ Uli Stielike (ALE)

73′ Gabriele Oriali (ITA)

88′ Pierre Littbarski (ALE)

 

SUBSTITUIÇÕES:

7′ Francesco Graziani (ITA) ↓

Alessandro Altobelli (ITA) ↑

 

62′ Wolfgang Dremmler (ALE) ↓

Horst Hrubesch (ALE) ↑

 

70′ Karl-Heinz Rummenigge (ALE) ↓

Hansi Müller (ALE) ↑

 

89′ Alessandro Altobelli (ITA) ↓

Franco Causio (ITA) ↑


(Imagem: O Globo)

Melhores momentos da partida, na narração de Luciano do Valle:

Gols italianos na decisão (FIFA TV):

… 08/07/1982 – Alemanha Ocidental 3 x 3 França

Três pontos sobre…
… 08/07/1982 – Alemanha Ocidental 3 x 3 França

“A noite de Sevilha”


(Imagem: Pinterest)

● Depois da Seleção Brasileira, era a França quem tinha o futebol mais encantador do planeta. Les Bleus voltavam à uma semifinal após 1958. O destaque era o meio campo, com os “Três Mosqueteiros” franceses, que, como no livro, também eram quatro: Bernard Genghini, Jean Tigana, Alain Giresse e Michel Platini. Um meio campo leve, habilidoso, de ótimo toque de bola e visão de jogo. No ataque, dois pontas de origem, Didier Six e Dominique Rocheteau, abriam espaço nas defesas adversárias para o avanço dos meias.

Desde 1979, Michel Platini e Jean-François Larios eram companheiros de clube no Saint-Étienne e se tornaram bons amigos. Platini era casado com Christelle Bigoni desde 1977 – uma loira linda, muito atraente e de olhos azuis. Aconteceu de Larios ter um caso com a esposa de Platini e o assunto ter explodido às vésperas da derrota da França para a Inglaterra por 3 x 1 na estreia. Depois de todo o alvoroço feito pela imprensa, Platini deu o ultimato ao técnico Michel Hidalgo para que escolhesse entre um e outro. O treinador não tinha como fazer diferente e optou por manter seu capitão e camisa 10.

Sem Larios, a França goleou o Kuwait por 4 x 1 do técnico Carlos Alberto Parreira – em jogo em que um xeique do país árabe invadiu o campo e obrigou o árbitro a anular um gol legítimo dos gauleses. Na sequência, a França empatou com a Tchecoslováquia por 1 x 1 e se classificou em segundo lugar no Grupo D. A segunda fase foi mais tranquila. Venceu a Áustria por 1 x 0 e a Irlanda do Norte por 4 x 1. Nas semifinais, enfrentaria a Alemanha Ocidental.

A Alemanha Ocidental perdeu por 2 x 1 na estreia para a surpreendente Argélia, de Rabah Madjer e Lakhdar Belloumi. Se recuperou na rodada seguinte ao bater o Chile por 4 x 1. Na terceira partida, protagonizou o jogo mais vergonhoso da história das Copas, um jogo de compadres, ao vencer a Áustria por 1 x 0, no único placar possível para classificar as duas seleções e eliminar os argelinos. Essa partida ficou conhecida como “Jogo da Vergonha” ou “A Vergonha de Gijón”. Na fase seguinte, venceu a Espanha, dona da casa, por 2 x 1 e empatou sem gols com a Inglaterra. Foi o suficiente para se garantir entre os quatro primeiros do Mundial pela sétima vez em sua história.


A Alemanha Ocidental do técnico Jupp Derwall atuava em um falso 4-4-2 em um misto de 3-5-2. O lateral esquerdo Bernd Förster fazia o papel de um terceiro zagueiro, a fim de liberar o outro lateral, Kaltz, que apoiava um pouquinho mais pela direita, fazendo o contra-peso do meia esquerda Briegel. Paul Breitner era o “todo-campista” indo de área a área. Dremmler marcava para Magath armar as jogadas para o ponta Littbarski e o centroavante Klaus Fischer.


Treinada por Michel Hidalgo, a França atuava no sistema tático 4-4-2. O destaque era seu quarteto de meio campo, com muita qualidade técnica: Ghengini, Tigana, Giresse e Platini.

● Eleito pela revista France Football o Bola de Ouro como melhor jogador da Europa em 1980 e 1981, o craque alemão Karl-Heinz Rummenigge estava em más condições físicas e, por isso, começou no banco de reservas. A França colocou em campo o que tinha de melhor.

A Alemanha começou melhor e partiu logo para o ataque, com a intenção de marcar um gol logo e se fechar. Mas o primeiro chute a gol foi dos franceses, aos cinco minutos de jogo, mas o chute de Giresse foi para fora.

Em sua primeira Copa, Pierre Littbarski era o mais acionado no ataque alemão. Único remanescente da Copa de 1974, Paul Breitner era o líder no meio de campo. O líbero Uli Stielike comandava a defesa teutônica.

Três minutos depois, Littbarski cobrou uma falta e a bola bateu na trave.

Depois, Rocheteau ajeitou com o peito e Genghini chutou por cima.

A Alemanha Ocidental abriu o placar aos dezessete minutos. Paul Breitner recebeu a bola de Wolfgang Dremmler no meio entre três franceses e avançou e tocou para Klaus Fischer. O goleiro francês Jean-Luc Ettori saiu da meta e defendeu, mas a bola sobrou na linha da grande área para Littbarski emendar forte e rasteiro para o gol.

Aos 21′, Platini cabeceou para fora.

Seis minutos depois, Manfred Kaltz (capitão na ausência de Rummenigge) derrubou Genghini. Giresse cobrou a falta, Platini desviou de cabeça e Bernd Förster derrubou Rocheteau dentro da área. Platini bateu o pênalti com frieza, no canto direito do goleiro Harald Schumacher, que caiu para o lado esquerdo.


(Imagem: UOL)

Com o passar do tempo, o jogo foi ficando mais pegado. Manuel Amoros e Littbarski se estranharam. Dremmler derrubou Tigana em um lance em que mereceria pelo menos o cartão amarelo. Depois, Schumacher deixou o corpo em uma dividida com Platini. Mais adiante, Bernd Förster acertou as costas de Rocheteau com o joelho em um lance fora da área. Schumacher trombou com Six e deu um bruto empurrão no atacante francês.

Em uma partida com tanto contato físico, os alemães acabavam levando vantagem. O time francês era leve, sem nenhum volante de ofício. Giresse e Genghini foram obrigados a se desdobrarem na marcação e receberam cartão amarelo.

O jogo continuava aberto. Em um contra-ataque, Rocheteau serviu Platini, que não conseguiu virar o jogo.

Depois, o tanque Hans-Peter Briegel surgiu na área e finalizou de primeira, mas viu Ettori espalmar pela linha de fundo.

Ainda no primeiro tempo, o perigoso Littbarski cabeceou a queima-roupa depois de um cruzamento da direita.

No fim do primeiro tempo Platini chutou de primeira de fora da área, mas a bola foi pela linha de fundo.

Na volta do intervalo, o técnico Michel Hidalgo já pensava em dar mais mobilidade a seu time e mandou Patrick Battiston ir para o aquecimento. E ele entrou aos sete minutos no lugar de Genghini.

No início do segundo tempo, Rocheteau ganhou de Schumacher e fez o gol, mas o árbitro anulou por falta do gaulês.

Platini e Battiston chutaram por cima. A França estava mais perto do gol.


(Imagem: UOL)

● Um lance decisivo para os rumos da partida aconteceu aos doze minutos do segundo tempo.

Maxime Bossis roubou a bola de Dremmler e deixou com Platini na meia direita. O camisa 10 lançou para Battiston nas costas da defesa germânica, entre o goleiro Schumacher e o líbero Stielike. O volante francês chegou primeiro para tocar de esquerda na saída do goleiro alemão, mas a bola foi para fora. Schumacher tinha saído do gol com uma fúria desproporcional e voou com tudo para cima do francês, sem se importar com a bola e acertou o quadril no rosto de Battiston. Proposital ou não, o goleiro alemão levou o francês a nocaute. Desmaiado em campo, ficou desacordado por quase 30 minutos.

Atônito, Platini acompanhou Battiston até fora do campo e pensou que o colega havia morrido: “Não tinha pulso, estava pálido…”

De forma absurda e ridícula, o árbitro holandês Charles Corver não viu a falta e deixou o jogo seguir, não expulsou o goleiro alemão pela agressão e ainda demorou um longo tempo para permitir a entrada da maca.

E Schumacher observava tudo de longe, mascando um chiclete, como se não tivesse feito nada, querendo cobrar logo o tiro de meta. Tudo isso enquanto Battiston é atendido pela equipe médica com direito a balão de oxigênio. Foi necessário colocar uma rampa sobre o fosso para que a ambulância conseguisse entrar próxima ao gramado.

Levado ao hospital, Battiston entraria em coma, mas se recuperaria logo. Ele sofreu uma concussão, teve dois dentes quebrados, três costelas fraturadas, algumas vértebras danificadas e permaneceu seis meses sem jogar após o episódio. Vinte e cinco anos mais tarde, ele passou por um transplante de osso na mandíbula. E não parou de sofrer e de passar por cirurgias.

Quando disseram a Schumacher que o francês tinha perdido dois dentes, o alemão aumentou ainda mais o ódio do mundo contra ele ao dizer: “Se é só isso que está errado com ele digam-lhe que pago as coroas”. Um jornal francês fez uma enquete poucos dias depois e o resultado deixava claro o que pensavam: o goleiro era o segundo alemão mais odiado da história, atrás apenas de Adolf Hitler.

Anos depois, Schumacher se defendeu em sua autobiografia “Anpfiff” (“Apito”, em alemão), dizendo que não se aproximou para ver o estado de Battiston porque o francês estava rodeado de colegas que lhe faziam gestos ameaçadores.

“Pediu desculpa, perdoei, mas não quero falar mais disso. Não quero me encontrar com ele. Senti que ao longo dos anos ele ficou marcado por isso, mas acabou. Passou. Foi um acidente em campo, nunca saberemos se foi propositado ou não.” ― Patrick Battiston, anos depois.

E Battiston, que havia acabado de entrar, teve que sair dez minutos depois para a entrada de Christián López.


(Imagem: Mais Futebol)

● E depois de uma queda após o atendimento a Battiston, o ritmo do jogo voltou a acelerar. Aos 27′, o pouco inspirado Felix Magath deu lugar a Hrubesch, “Das Kopfball-Ungeheuer” (“A Besta Cabeceadora”).

López anhou no alto de Schumacher, mas mandou por cima.

Aos 35′, Six chutou e Schumacher pegou.

A Alemanha respondeu, com Ettori pegando o chute de Briegel.

Fischer e Littbarski cruzaram com perigo, mas sem ninguém para aproveitar.

Rocheteau chutou com perigo, mas Schumacher evitou o gol.

Com o tempo regulamentar próximo do fim, o jogo estava aberto. Os franceses controlavam o ritmo e os alemães investiam em ataques em velocidade.

Aos 45′ do segundo tempo, Amoros chutou de fora da área e a bola foi no travessão.

Breitner também chutou de fora da área, Ettori espalmou para o lado e mergulhou para evitar o rebote de Fischer. Uma defesaça!


(Imagem: Pinterest)

● Na prorrogação o jogo pegou fogo de vez.

Logo no segundo minuto do tempo extra, Didier Six cobrou escanteio e a defesa alemã tirou. Platini ficou com o rebote na ponta direita e foi derrubado por Hans-Peter Briegel. Giresse cobrou a falta, a bola desviou na barreira e sobrou na marca do pênalti, na medida para Marius Trésor emendar um voleio indefensável para o gol.

Littbarski, um dos melhores em campo, chutou e Ettori pegou.

Até os alemães estavam torcendo para a França. Mas se Schumacher era o vilão, Karl-Heinz Rummenigge era o anti-herói. Mesmo em más condições físicas, Rummenigge foi para o jogo aos sete minutos e seria decisivo. O melhor jogador do mundo no ano anterior era o único capaz de carregar sua equipe mesmo sem estar no seu melhor. Mas antes, veria a Mannschaft tomar o terceiro gol.

No minuto seguinte, Dominique Rocheteau puxou contragolpe pela direita. Da meia-lua, Platini viu Didier Six sozinho na esquerda da área. Ele segurou, percebeu a aproximação de Giresse e rolou para o baixinho emendar bonito, da risca da grande área. A bola ainda bateu na trave antes de ir morrer no fundo das redes.

Sem sorte, a Alemanha respondeu com um chute na trave de Fischer.

Aos 12′, Uli Stielike ganhou uma dividida com Bossis. Rummenigge passou para Littbarski na esquerda, recebeu de volta e deixou para Stielike abrir de novo para Littbarski invadir a área e cruzar da esquerda. Rummenigge se antecipou à marcação de Trésor e desviou de costas para o gol.

A presença de Rummenigge desorientava a defesa francesa. Aos três minutos do segundo tempo, o craque tocou de três dedos para Bernd Förster, que abriu na esquerda para Littbarski. O ponta alemão continuava impressionante. Ele foi à linha de fundo e cruzou da esquerda para a segunda trave. Hrubesch subiu e escorou de cabeça para a entrada da pequena área e Klaus Fischer virou uma linda bicicleta e mandou para o gol.

O jogo continuou intenso até o apito final, mas sem grandes chances de nenhum lado.

E assim foi necessária a primeira decisão por pênalti da história dos Mundiais.


(Imagem: These Football Times)

● Tudo igual em 120 minutos e a partida foi decidida nos pênaltis.

A França bateu o primeiro. Giresse pôs o time na frente, batendo rasteiro à direita, deslocando Schumacher.

Manfred Kaltz empatou, cobrando à esquerda, quase no meio do gol. Ettori caiu para o lado direito.

Manuel Amoros cobrou com calma, à meia altura e à esquerda, enquando o goleiro alemão foi para o outro canto.

Paul Breitner mandou alto e no meio do gol. Ettori foi surpreendido e ficou parado, sem reação.

Rocheteau foi o cobrador seguinte. Bateu à esquerda, deslocando o arqueiro alemão.

Uli Stielike, jogador do Real Madrid, bateu mal, à meia altura e à direita e o goleiro Ettori defendeu. O alemão se ajoelhou e chorou, até ser conduzido por Littbarski para receber o consolo dos demais colegas de equipe.

Mas Didier Six retribuiu e bateu da mesma forma e Schumacher pegou.

Littbarski empatou em 3 a 3. Ele mandou no ângulo esquerdo, sem chances para o goleiro.

Platini converteu o seu, batendo à esquerda, enquanto o arqueiro alemão pulou para o lado contrário.

Rummenigge bateu rasteiro à esquerda e o goleiro ficou parado.

Maxime Bossis foi um dos melhores em campo e foi um dos grandes defensores de sua geração. Ele foi o primeiro a bater nas cobranças alternadas. Chutou rasteiro e à direita, mas Schumacher voou para pegar. O goleiro que deveria ter sido expulso e banido do esporte por um longo tempo era o vilão do futebol e o heróis dos alemães.

Com uma frieza incrível, Horst Hrubesch bateu no canto esquerdo e Ettori ficou parado no meio. Gol da classificação: 5 a 4 para a Alemanha Ocidental. Com a vitória, todos vão comemorar com Stielike, que ainda estava desolado.


(Imagem: Mais Futebol)

● Uma partida dramática, uma das maiores semifinais da história das Copas.

A Nationalelf se garantia em mais uma decisão de Mundial, enquanto os franceses estavam inconsoláveis. Uma das derrotas mais doídas numa semifinal de Copa do Mundo.

“Foi meu jogo mais bonito. O que aconteceu naquelas duas horas reuniu todos os sentimentos da própria vida. Nenhum filme, nenhuma peça, conseguiria capturar tantas contradições e emoções. Foi completo. Tão forte. Fabuloso.” ― Michel Platini

Na decisão do 3º lugar, a França perdeu para a Polônia por 3 x 2. Mas dois anos depois, Michel Platini estava exuberante e liderou Les Bleus na conquista da Eurocopa de 1984. Na Copa do Mundo de 1986, a França eliminou o Brasil e chegou novamente às semifinais, mas caiu mais uma vez diante da Alemanha Ocidental. Ficou em 3º lugar ao bater a Bélgica por 4 x 2 na prorrogação. O título mundial só veio em 1998, na geração comandada por Zinedine Zidane.

Em quatro decisões por pênaltis somando todos os Mundiais, a Alemanha sempre foi vencedora. Incrivelmente, a cobrança de Uli Stielike contra a França em 1982 é a única penalidade perdida até hoje pela Alemanha nesse tipo de disputa.

Na final, a Alemanha Ocidental enfrentaria a Itália. Contaremos a história dessa partida no dia 11 de julho.


(Imagem: Getty Images)

FICHA TÉCNICA:

 

ALEMANHA OCIDENTAL 3 x 3 FRANÇA

 

Data: 08/07/1982

Horário: 21h00 locais

Estádio: Ramón Sánchez Pizjuán

Público: 70.000

Cidade: Sevilha (Espanha)

Árbitro: Charles Corver (Holanda)

 

ALEMANHA OCIDENTAL (4-4-2):

FRANÇA (4-4-2):

1  Harald Schumacher (G)

22 Jean-Luc Ettori (G)

20 Manfred Kaltz (C)

4  Maxime Bossis

4  Karlheinz Förster

8  Marius Trésor

15 Uli Stielike

5  Gérard Janvion

5  Bernd Förster

2  Manuel Amoros

6  Wolfgang Dremmler

9  Bernard Genghini

2  Hans-Peter Briegel

14 Jean Tigana

3  Paul Breitner

12 Alain Giresse

14 Felix Magath

10 Michel Platini (C)

7  Pierre Littbarski

18 Dominique Rocheteau

8  Klaus Fischer

19 Didier Six

 

Técnico:
Jupp Derwall

Técnico: Michel Hidalgo

 

SUPLENTES:

 

 

21 Bernd Franke (G)

1  Dominique Baratelli (G)

22 Eike Immel (G)

21 Jean Castaneda (G)

12 Wilfried Hannes

3  Patrick Battiston

19 Holger Hieronymus

6  Christian Lopez

17 Stephan Engels

7  Philippe Mahut

18 Lothar Matthäus

11 René Girard

10 Hansi Müller

13 Jean-François Larios

13 Uwe Reinders

15 Bruno Bellone

16 Thomas Allofs

16 Alain Couriol

9  Horst Hrubesch

17 Bernard Lacombe

11 Karl-Heinz Rummenigge

20 Gérard Soler

 

GOLS:

17′ Pierre Littbarski (ALE)

27′ Michel Platini (FRA) (pen)

92′ Marius Trésor (FRA)

98′ Alain Giresse (FRA)

102′ Karl-Heinz Rummenigge (ALE)

108′ Klaus Fischer (ALE)

 

CARTÕES AMARELOS:

35′ Alain Giresse (FRA)

40′ Bernard Genghini (FRA)

46′ Bernd Förster (ALE)

 

SUBSTITUIÇÕES:

50′ Bernard Genghini (FRA) ↓

Patrick Battiston (FRA) ↑

 

60′ Patrick Battiston (FRA) ↓

Christian Lopez (FRA) ↑

 

73′ Felix Magath (ALE) ↓

Horst Hrubesch (ALE) ↑

 

97′ Hans-Peter Briegel (ALE) ↓

Karl-Heinz Rummenigge (ALE) ↑

 

DECISÃO POR PÊNALTIS:

ALEMANHA 5

FRANÇA 4

Manfred Kaltz (gol, no meio do gol)

Alain Giresse (gol, à direita)

Paul Breitner (gol, alto, no meio do gol)

Manuel Amoros (gol, à esquerda)

Uli Stielike (perdeu, à direita, defendido por Ettori)

Dominique Rocheteau (gol, à esquerda)

Pierre Littbarski (gol, no ângulo esquerdo)

Didier Six (perdeu, à direita, defendido por Schumacher)

Karl-Heinz Rummenigge (gol, com curva, no canto esquerdo)

Michel Platini (gol, no canto esquerdo)

Horst Hrubesch (gol, à esquerda)

Maxime Bossis (perdeu, à direita, defendido por Schumacher)

Gols da partida (Rede Globo):

Melhores momentos (FIFA):

Reportagem e entrevistas com Schumacher e Battiston (FIFA):

… 02/07/1982 – Brasil 3 x 1 Argentina

Três pontos sobre…
… 02/07/1982 – Brasil 3 x 1 Argentina


(Imagem: UOL)

● Pela terceira Copa do Mundo seguida, Brasil e Argentina se enfrentavam na segunda fase. Nas duas vezes anteriores eram quadrangulares, mas dessa vez eram três times e só o vencedor da chave passava às semifinais. Os pesos-pesados Brasil, Argentina e Itália estavam no mesmo grupo. Esse foi o verdadeiro conceito de um “grupo da morte”.

O técnico Telê Santana contava com um excelente time, com destaque para o quarteto de meio campo: Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. No comando da Seleção, Telê havia perdido apenas duas partidas: uma em seu segundo jogo (15/06/1980), no amistoso contra a URSS no Maracanã (1 x 2), e outra na final no Mundialito (em 10/01/1980), contra o Uruguai (1 x 2).

O time chegou em plena forma à Espanha e obteve 100% de aproveitamento na primeira fase. Primeiro venceu de virada o bom time da União Soviética por 2 x 1. Depois, goleou Escócia (4 x 1) e Nova Zelândia (4 x 0). Discutivelmente, era o melhor time do mundo e encantava pelo jogo leve e vistoso. Mas o primeiro desafio “de verdade” seria o clássico sul-americano.

A Argentina chegou como campeã do mundo, mas estreou perdendo para a Bélgica por 1 x 0. Depois, venceu a Hungria por 4 x 1 e El Salvador por 2 x 0. Na primeira partida da fase final, perdeu para a Itália por 2 x 1. Agora, precisava vencer o Brasil para ainda ter alguma chance de classificação.

O treinador portenho César Luis Menotti montou um time com jogadores talentosos, mas não conseguiu repetir 1978. O time titular era praticamente o mesmo, com um “pequeno acréscimo”: o jovem Diego Armando Maradona.

Por ter obtido uma melhor colocação na primeira fase, a Seleção Brasileira pôde ter mais tempo para se preparar. Foram nove dias entre a vitória sobre a Nova Zelândia e o jogo contra os hermanos. Folgou na primeira rodada do triangular e assistiu de camarote à vitória por 2 x 1 dos italianos sobre os argentinos – que ainda perderam o volante Américo Gallego para a partida decisiva, expulso por chutar Marco Tardelli sem bola.


O Brasil atuava no 4-4-2, um sistema montado para acomodar os quatro destaques no meio campo. Os laterais eram bastante ofensivos e até o zagueiro Luizinho gostava de se aventurar no ataque. Faltava alguém na ponta direita, tanto para atacar, quanto para defender.


A Argentina atuava no 4-3-3, com Kempes chegando sempre ao ataque e Maradona recuando para armar o jogo, aparecendo em todos os lados.

● Esse era o duelo esperado pelo mundo todo: a equipe que estava apresentando o melhor e mais técnico futebol, contra os atuais campeões do mundo. E só a vitória valia para o albicelestes.

Por isso, a Argentina começou com tudo. Logo aos dois minutos, Mario Kempes fez boa jogada pela esquerda e cruzou para a área. Juan Barbas cabeceou forte, mas Waldir Peres segurou firme.

Mas o jogo mudou aos 11 minutos de partida. Após um contra-ataque rápido, Daniel Passarella fez falta em Serginho Chulapa na intermediária. Na cobrança, Éder soltou um de seus canhões e a bola fez uma curva impressionante. A bola merecia entrar direto, mas Ubaldo Fillol desviou de leve e ela explodiu na trave e quicou em cima da linha, sobrando limpa para Zico chegar antes de Serginho e só tocá-la para o gol vazio. Foi o quarto gol de Zico na Copa.

Mas o jogo continuou da mesma forma: a Argentina atacando o lado direito brasileiro (que não tinha um ponta para recompor e auxiliar a marcação, como Éder fazia pelo lado esquerdo) e o Brasil apostando nos contragolpes.

Falcão fez uma partida impecável, tanto defensiva quanto ofensivamente. Aos 33′, ele recebeu um belo passe de Leandro e chutou por cima, dando um susto em Fillol.

Aos 41′, Júnior lançou para Falcão, que tabelou com Sócrates pelo alto e bateu de esquerda, sem deixar a bola cair. Novamente a bola foi por cima do gol argentino.

Maradona cobrou escanteio, Passarella subiu entre Sócrates e Oscar e cabeceou bem, mas Waldir espalmou para cima.

No segundo tempo, a Argentina voltou com Ramón Díaz no lugar de Mario Kempes. Com isso, Maradona passou a jogar mais recuado, articulando o jogo e livre para se movimentar.

Aos 2′, o bom volante Osvaldo Ardiles foi o protagonista da primeira das muitas pancadas distribuídas pelos argentinos. Ele deu um pisão no tornozelo de Sócrates, que precisou ser atendido por mais de cinco minutos fora dos gramados.

Poucos minutos depois, Maradona fez uma linda jogada individual e deixou Júnior no chão. O lateral brasileiro levantou e deu um imprudente carrinho por trás, atingindo o tornozelo do Pibe dentro da área, mas o árbitro mandou o jogo seguir de forma equivocada – foi pênalti.

Aos 10′, Cerezo arriscou de fora da área e Fillol defendeu bem. Em uma cobrança de falta ensaiada cinco minutos depois, Éder rolou para Cerezo chutar novamente de longe e assustar o arqueiro argentino.

Pelo futebol apresentado, o segundo gol brasileiro demorou muito, mas o intervalo entre um gol e outro foi de futebol extraordinário, mágico, que encantava os 44 mil expectadores no estádio Sarrià, em Barcelona. O foco estava em Maradona, mas a estrela foi Zico.

Aos 21′, Sócrates abriu com Éder na esquerda e o ponta deixou com Zico no meio. O Galinho de Quintino viu Falcão aparecendo no espaço vazio na ponta direita e lançou no ponto futuro, nas costas do lateral esquerdo Alberto Tarantini. Falcão dominou, levantou a cabeça e cruzou na segunda trave para Serginho cabecear de cima para baixo, sem chances para Fillol. Foi uma linda e envolvente troca de passes do escrete canarinho, que resultou no segundo gol de Chulapa no Mundial. Brasil 2 a 0.

Cada gol era comemorado com muita extravagância. Fazia parte do espetáculo que só o brasileiro era capaz de proporcionar, dentro e fora de campo.


(Imagem: Veja)

A Argentina não conseguia construir jogadas de perigo. Sempre parava na entrada da área brasileira e tinha dificuldades de recuperar a posse de bola. O placar poderia estar ainda maior se o Brasil não perdesse tantos gols.

A linha de impedimento muito mal feita pelos argentinos rendeu também o terceiro gol brasileiro, aos 30′. Sócrates deixou de calcanhar para Falcão. O Rei de Roma tabelou com Éder. Júnior recebeu e deixou com Zico no meio. Com muita visão de jogo, o camisa 10 percebeu a infiltração do lateral flamenguista e fez o passe perfeito em profundidade na diagonal, nas costas da defesa. Júnior recebeu livre e tocou de esquerda entre as pernas de Fillol. Brasil 3 a 0.

“A diagonal é fundamental, porque é a possibilidade de a bola chegar e o cara não entrar em impedimento.” ― Zico

Na base do desespero, até Passarella se lançou à frente. Aos 32 min, Maradona deixou o capitão em condição de finalizar, próximo ao bico da grande área. Ele chutou bem, mas Waldir desviou para escanteio em uma ótima defesa.

Pouco depois, o mesmo Passarella perdeu a compostura e deu uma entrada criminosa em Zico. O meia brasileiro precisou sair para a entrada de Batista. Telê tinha acabado de colocar Edevaldo no lugar de Leandro, que havia sentido uma lesão ainda durante o treinamento.

Aos 40′, Batista deu uma entrada dura em Juan Barba, Maradona revidou com um coice no estômago do brasileiro e foi prontamente expulso pelo juiz mexicano Mario Rubio Vázquez. Na reclamação, Falcão recebeu o primeiro cartão amarelo da Seleção Brasileira em todo o Mundial.

“Na verdade, o Maradona me disse depois que a intenção dele era dar aquela pancada em mim. Só depois ele deu percebeu que era o Batista.” ― Falcão

Maradona extravasou toda sua frustração em uma falta maldosa. Certamente ele queria ter feito mais em sua primeira Copa do Mundo, mas sofreu nas mãos de zagueiros maldosos (especialmente do italiano Claudio Gentile) e de árbitros condescendentes.

Menotti buscava no cigarro o consolo habitual e os albicelestes só marcaram o gol de honra no último minuto de jogo por causa de um erro na saída de bola brasileira. Tatantini roubou a bola de Batista e tocou para Ramón Díaz na entrada da área. O argentino viu o Waldir Peres adiantado e chutou de esquerda com efeito, acertando no ângulo direito do goleiro brasileiro.

Essa foi a apresentação mais espetacular da Seleção de 1982. Com esse resultado, a Argentina estava eliminada e o Brasil jogaria por um empate com a Itália para ir às semifinais da Copa de 1982.


(Imagem: Veja)

“As oportunidades apareceram, o jogo fluiu e a gente fez jogadas realmente muito boas, gols maravilhosos. A Argentina precisava ganhar. Veio, se abriu, apareceram os espaços. No primeiro gol, eu meti a bola pro Serginho no meio de dois argentinos, e o Passarella, último homem, fez a falta que o Éder bateu e eu fiz o gol. O segundo gol, quando eu dominei a bola, o Falcão passou pelo lado, eu meti a bola pra ele e ele deu pro Serginho fazer o gol. E o terceiro gol, a mesma coisa. Já tinham acontecido jogadas que a gente entrava na cara do gol toda hora. Aquele time da Argentina fazia muita linha [de impedimento], e aí ficava muito fácil.” ― Zico

Com apenas 21 anos, Maradona já tinha a marra que lhe acompanharia até os dias de hoje. Ele passou a cobrar US$ 5 mil para cada entrevista concedida a partir da segunda fase. E já atacava seus críticos: “Pelé precisa estar no time e enfrentar a marcação constante de quatro defensores para depois opinar”. E continuou alfinetando o Rei do Futebol na chegada a Buenos Aires, após a eliminação da Argentina: “Pelé é um tagarela que tem de falar de mim ou de Rummenigge para sair nas revistas”.

Na comemoração do terceiro gol brasileiro, o Maestro Júnior sambou ao som imaginário da música que ele mesmo gravou poucos meses antes do Mundial: “Povo feliz”, conhecida pelo refrão: “voa canarinho, voa”. Composta por Memeco e Nonô do Jacarezinho, a música foi a trilha sonora dos bailes brasileiros em gramados espanhóis. O compacto alcançou o certificado de disco de platina, com 726 mil cópias vendidas.

Na partida seguinte, o Brasil perdeu por 3 x 2 para a Squadra Azzurra e deu adeus à competição. Mas mesmo assim, a Seleção de 1982 entrou para a história como uma das melhores e mais vistosas equipes de todos os tempos.


(Imagem: Pinterest)

FICHA TÉCNICA:

 

BRASIL 3 x 1 ARGENTINA

 

Data: 02/07/1982

Horário: 17h15 locais

Estádio: Sarrià

Público: 44.000

Cidade: Barcelona (Espanha)

Árbitro: Mario Rubio Vázquez (México)

 

BRASIL (4-3-3):

ARGENTINA (4-3-3):

1  Waldir Peres (G)

7  Ubaldo Fillol (G)

2  Leandro

14 Jorge Olguín

3  Oscar

8  Luis Galván

4  Luizinho

15 Daniel Passarella (C)

6  Júnior

18 Alberto Tarantini

5  Toninho Cerezo

1  Osvaldo Ardiles

15 Falcão

3  Juan Barbas

10 Zico

10 Diego Armando Maradona

8  Sócrates (C)

4  Daniel Bertoni

9  Serginho Chulapa

5  Gabriel Calderón

11 Éder

11 Mario Kempes

 

Técnico: Telê Santana

Técnico: César Luis Menotti

 

SUPLENTES:

 

 

12 Paulo Sérgio (G)

2  Héctor Baley (G)

22 Carlos (G)

16 Nery Pumpido (G)

13 Edevaldo

19 Enzo Trossero

14 Juninho Fonseca

22 José Van Tuyne

16 Edinho

13 Julio Olarticoechea

17 Pedrinho Vicençote

9  Américo Gallego

18 Batista

12 Patricio Hernández

7  Paulo Isidoro

21 José Daniel Valencia

19 Renato Pé Murcho

17 Santiago Santamaría

20 Roberto Dinamite

6  Ramón Díaz

21 Dirceu

20 Jorge Valdano

 

GOLS:

11′ Zico (BRA)

66′ Serginho Chulapa (BRA)

75′ Júnior (BRA)

89′ Ramón Díaz (ARG)

 

CARTÕES AMARELOS:

33′ Daniel Passarella (ARG)

77′ Waldir Peres (BRA)

85′ Falcão (BRA)

 

CARTÃO VERMELHO: 85′ Diego Armando Maradona (ARG)

 

SUBSTITUIÇÕES:

INTERVALO Mario Kempes (ARG) ↓

Ramón Díaz (ARG) ↑

 

64′ Daniel Bertoni (ARG) ↓

Santiago Santamaría (ARG) ↑

 

82′ Leandro (BRA) ↓

Edevaldo (BRA) ↑

 

83′ Zico (BRA) ↓

Batista (BRA) ↑

Veja aqui os belos gols da partida:

Música “Voa canarinho, voa”, com imagens da Seleção Brasileira na Copa de 1982:

… 14/06/1982 – Brasil 2 x 1 União Soviética

Três pontos sobre…
… 14/06/1982 – Brasil 2 x 1 União Soviética


(Imagem: Blog do Barath)

● A Copa do Mundo de 1982 foi a porta de entrada para muitos amantes do futebol. Se ela não faz parte das boas memórias de muitos brasileiros, deixou saudades nos amantes do esporte. Analisando friamente os Mundiais seguintes, chega-se à conclusão de que aquele foi o início do fim do belo futebol, com três ou quatro craques em várias equipes.

Existia um favorito destacado: o Brasil de Zico, Falcão, Sócrates, Cerezo, Júnior e companhia ilimitada. Mas havia várias outras seleções com muita técnica e elevado nível tático, como a França de Michel Platini, Rocheteau, Giresse e Tigana; a Itália, de Dino Zoff, Scirea, Bruno Conti e Paolo Rossi; a Polônia, de Lato, Boniek e Zmuda; a Alemanha de Rummenigge, Paul Breitner e Littbarski; a então campeã Argentina de Passarella, Ardiles, Mario Kempes e do jovem Maradona; a injustiçada Argélia de Madjer e Belloumi; a União Soviética do goleiro Dasayev e do atacante Oleg Blokhin. Isso sem falar em seleções tradicionais, como Inglaterra, Espanha, Iugoslávia, Bélgica, Áustria e Escócia.

Mesmo diante de todos esses enormes adversários, o futebol refinado da Seleção Brasileira se destacava e sua torcida esbanjava alegria e auto-confiança, também influenciada pelo ufanismo da imprensa nacional. Onde quer que o esquadrão de Telê Santana estivesse, estava junto uma caravana de torcedores fanáticos e barulhentos, proporcionando um verdadeiro carnaval.

Para nós, apaixonados por futebol, aquela Seleção encarnou como poucas o conceito de futebol-arte. A escalação está sempre fresca na memória. Porém, faltaram duas unanimidades: o goleiro Leão, por opção de Telê, e o centroavante Careca, que era titular da equipe, mas se lesionou a menos de um mês do início do Mundial.

Com um toque de bola refinado e objetivo, aquela equipe encantou o mundo. Tinha um goleiro experiente (Waldir Peres), uma dupla de zaga que se completava (Oscar e Luizinho), dois laterais ofensivos (Leandro e Júnior), dois volantes extremamente técnicos (Falcão e Cerezo), dois meias geniais (Zico e Sócrates) e dois atacantes fortes (Éder e Serginho). Todos dirigidos pelo Mestre Telê Santana.

O retrospecto antes da Copa referendava o favoritismo brasileiro: em 31 partidas, foram 23 vitórias, seis empates e apenas duas derrotas, com 75 gols marcados e 19 sofridos. Com tudo isso, o Brasil chegou à Espanha cheio de expectativas.


Taticamente, o Brasil foi a campo tendo o 4-3-3 como referência, com Dirceu escalado inicialmente como um falso ponta direita. Sem a bola, defendia em um 4-2-3-1. Com a bola, avançava em um 4-1-4-1, com Sócrates e Falcão se revezando na proteção à defesa.


A URSS também foi escalada baseada no 4-3-3. Sem a bola, a defesa e o meio fazia uma linha de quatro jogadores. Com a bola, Gavrilov era o jogador chave para emular o 4-3-1-2, se posicionando à frente de Bal’, Daraselia e Bessonov e sendo o principal articulador das tramas ofensivas. Mais avançados, Shengelia e Blokhin se movimentavam intensamente pelos dois lados do ataque.

● Finalmente havia chegado o dia 14 de junho! O país inteiro parou diante da TV para assistir à estreia brasileira na Copa do Mundo.

O time soviético havia vencido o Brasil dois anos antes, em pleno Maracanã. Era uma boa equipe, com jogadores de alto nível, como o goleiro Dasayev, o zagueiro e capitão Chivadze, os meias Dem’yanenko e Bessonov e, principalmente, o atacante Blokhin. Ainda assim, o mínimo que se esperava era um “baile” do Brasil.

Telê surpreendeu a todos já na escalação, ao colocar Dirceu na vaga do suspenso Toninho Cerezo, barrando Paulo Isidoro, que tinha passado quase toda a preparação no time titular.

Após o apito inicial, a Seleção Canarinho foi logo protagonizando uma bela troca de passes entre Falcão, Leandro, Dirceu e Sócrates.

Logo aos dois minutos, Dirceu roubou a bola de Chivadze e tocou para Zico, que avançou, passou por um adversário e chutou forte. Dasayev espalmou para escanteio, já mostrando logo de cara que seria muito difícil passar pela parede do goleiro soviético.

Aos 3′, Éder cobrou escanteio da direita, com muito efeito. Dasayev não conseguiu afastar e Serginho perdeu um gol feito ao furar a cabeçada.

Os soviéticos acordaram dois minutos depois. O perigosíssimo Oleg Blokhin passou como quis por Leandro e cruzou para Bal’ cabecear com perigo.

No lance seguinte, Zico arrancou com liberdade e passou para Júnior, que avançava pela meia esquerda. O lateral brasileiro finalizou, mas Dasayev fez uma defesa segura.

Aos 8, Sócrates lançou Chulapa no costado da zaga, mas o camisa 9 pegou mal na bola e chutou por cima do gol.


A defesa soviética estava sempre muito fechada e atenta (Imagem: Blog do Ramon Paixão)

Aos 18, Luizinho deu uma mostra do seu nervosismo pela estreia. Ele puxou Shengelia dentro da área. Pênalti claríssimo, ignorado pelo árbitro espanhol Augusto Lamo Castillo.

Era uma belíssima partida, muito intensa. A URSS saía para o jogo e o Brasil fazia transições ofensivas rápidas, em contra-ataques perigosos.

Mas era muito difícil que as duas equipes mantivessem o ritmo forte e o jogo teve uma queda no nível, mas a Seleção Brasileira continuou controlando melhor as ações.

Porém, aos 34 minutos de jogo, depois de uma troca de passe soviética na intermediária ofensiva, Bal’ arriscou um chute despretensioso, da intermediária. A bola foi fraca, no meio do gol, em cima de Waldir Peres. Mas ele não a segurou, deixando escapar para esquerda e entrar no gol. Waldir engoliu um dos maiores frangos da história das Copas. Injusto com a história desse grande goleiro, mas uma falha indesculpável para seu nível.

Aos 36′, a bola bateu no braço de Baltacha dentro da grande área russa. Depois da grande reclamação dos brasileiros, especialmente de Sócrates, Castillo resolveu marcar apenas a jogada perigosa do zagueiro, ao invés de pênalti.

Aos 42, grande chance perdida pelos soviéticos. A defesa brasileira falhou e Bessonov perdeu um gol feito ao chutar na trave o rebote de um cruzamento.


O capitão Sócrates foi fundamental para que o Brasil pudesse virar o marcador (Imagem: Anotando Fútbol)

Telê não gostou muito do que viu de Dirceu em campo e o substituiu por Paulo Isidoro no intervalo. Essa nova formação era mais próxima técnica e taticamente da que fora treinada e testada nos dois anos anteriores ao Mundial. Com isso, o Brasil passou a trabalhar melhor a bola e pressionar mais no segundo tempo.

Aos 15 minutos, a superioridade dos sul-americanos era clara. Mas mesmo com o domínio territorial e físico, o Brasil abusava dos chuveirinhos na área em busca de uma finalização de Serginho, em vez de seguir seu próprio estilo de troca de passes. Era um time nervoso e ansioso para definir logo as jogadas.

A URSS se fechava toda e mantinha praticamente nove jogadores entrincheirados dentro de sua intermediária defensiva. Com o perdão do trocadilho, era uma “Cortinha de Ferro” difícil de ser ultrapassada. Assim, mesmo com toda a qualidade técnica e posse de bola, o Brasil só conseguia assustar com tiros de longa distância.

Leandro parou nas mãos de Dasayev e depois em um desvio do capitão Chivadze. Éder primeiro chutou perigosamente, mas por cima. Depois, aos 25′, o canhão do camisa 11 obrigou Dasayev a desviar para escanteio.

Enquanto a URSS segurava o placar, o Brasil tentava igualar e o tempo passava rápido. Estava claro qual seria a solução para os brasileiros: uma jogada de um de seus gênios e finalização de fora da área.


Sócrates passa por dois adversários e chuta forte para empatar a partida (Imagem: Memória Globo)

Foi o que aconteceu aos 30 minutos. A defesa vermelha afastou um cruzamento de Éder. Sócrates ficou com a sobra, passou por dois marcadores e chutou da intermediária. Foi um verdadeiro “pombo sem asas”, que morreu no ângulo direito do grande goleiro soviético, que dessa vez nada pôde fazer. A quinze minutos do fim, finalmente a partida estava empatada.

Aos 32′, enfim Serginho ganhou uma bola pelo alto da zaga rival e ajeitou para Zico na pequena área. O Galinho, mesmo desequilibrado, se esticou todo e finalizou com o bico da chuteira e a bola passou rente a trave direita de Dasayev.

Aos 36′, o ansioso Luizinho cometeu novo pênalti, novamente não marcado pelo juiz. Ele cortou com a mão um lançamento longo de Blokhin. Os equívocos da arbitragem ajudavam o Brasil: dois graves erros a favor e apenas um contra.

Os soviéticos voltaram a assustar e marcaram um gol em impedimento, mas desta vez o árbitro acertou ao invalidar logo o lance.


Éder decidiu a partida, com um foguete de fora da área (Imagem: Blog do Barath)

A dois minutos do apito final, enquanto o comentarista da TV Globo Márcio Guedes tentava justificar o empate, o Brasil atacava. Paulo Isidoro dominou na direita e tocou para o meio. O genial Falcão abriu as pernas, fazendo o corta-luz. Da meia-lua, Éder já dominou levantando a bola e, sem a deixar cair, emendou um petardo no contrapé do goleiro. Desaev teve a lucidez de notar que não havia nada a fazer.

Era a virada. Agora estava 2 a 1 para a Seleção que não merecia perder nunca.

Dasayev pegou tudo que deu. Entre defesas difíceis e cruzamentos interceptados, foram 18 intervenções.

Mas ainda havia tempo para mais. Serginho fez uma grande jogada, passando pelo seu marcador e batendo cruzado. Zico tentou chegar de carrinho, mas não alcançou a bola.

Foram dois minutos de acréscimos, nos quais Luciano do Valle, então na TV Globo, narrava dramaticamente os instantes finais da estreia brasileira. Justamente quando Falcão entrava cara a cara com o goleiro russo, o péssimo árbitro Lamo Castillo encerrou a partida. Provavelmente seria o terceiro gol do Brasil.

De qualquer forma, apesar do aparente nervosismo de alguns jogadores, valeu pela vitória de virada e pela demonstração de que o Brasil era, sim, o grande favorito ao título da Copa de 1982.

Ficaram alguns questionamentos. Waldir Peres sofreu um gol ridículo. Leandro não conseguiu parar Blokhin. Luizinho cometeu dois pênaltis. Serginho cansou de perder gols.


Éder comemora o gol da virada (Imagem: Blog do Ramon Paixão)

● Falcão fez um belo trabalho cobrindo as subidas dos dois laterais. Dirceu e Paulo Isidoro preencheram bem o lado direito, dando equilíbrio ao time. Nas partidas seguintes, com a volta de Toninho Cerezo ao time titular e sem ninguém de ofício na posição, o lado direito ficou fragilizado e esse equilíbrio não existiu mais.

Sobre essa partida, Zico fez algumas ponderações para o excelente livro “Sarriá 82”, de Gustavo Roman e Renato Zanata:

“Eu sei que naquele jogo deu pena do Serginho, porque ele teve tantas oportunidades, desperdiçou tantos gols. Nós entramos massacrando a União Soviética, Dasayev pegou tudo, e aí os caras foram lá e fizeram um gol. Dasayev foi o melhor jogador em campo, e, para vazá-lo, só mesmo daquela forma que os gols acabaram saindo. Aconteceu o lance dos pênaltis (não marcados em favor da URSS). Eu acho que o mais vergonhoso foi o do segundo tempo. De onde eu estava, não vi direito. Depois é que eu vi na televisão e falei ‘não é possível’, foi muito vergonhoso. No primeiro tempo acho que o cara (Shengelia) forçou um pouquinho.”

Telê Santana confessaria também: “Sofri muito, mas este foi um dos maiores jogos que vi na minha vida”.

Falcão (Roma, Itália) e Dirceu (Atlético de Madrid, Espanha) foram oficialmente os dois primeiros jogadores que atuavam fora do Brasil a serem convocados para uma Copa do Mundo. Em 1934, Patesko e Luiz Luz atuavam no Nacional, do Uruguai, mas foram inscritos como atletas da CBD, porque naquela época o Brasil só permitia amadores na Seleção e os times uruguaios eram profissionais.

A Roma, inclusive, exigiu que a CBF fizesse um seguro de 5 milhões de dólares para que Falcão pudesse atuar na Copa. Felizmente ele não teve nenhum problema físico e seria um personagem fundamental em seu clube na temporada 1982/83, liderando a Roma na conquista da Serie A.

Curiosamente, nessa vitória brasileira sobre a URSS, os travessões do estádio Sánchez Pizjuán, em Sevilha, estavam 2,5 centímetros mais baixos que o estipulado pelas regras do futebol (2,44 metros). O problema foi detectado por um ex-goleiro iugoslavo no dia seguinte à partida e o estádio só foi utilizado novamente na semifinal entre Alemanha e França, já com as traves corrigidas.

Enquanto seus principais concorrentes passavam apuros, o Brasil dava show. Foram exibições de gala e gols antológicos na sequência do Grupo 6 da primeira fase, quando golearia a Escócia por 4 a 1 e a Nova Zelândia por 4 a 0. No Grupo C da segunda fase, a Seleção deu um show na vitória por 3 a 1 sobre a Argentina e jogaria por um empate contra a Itália. Ah, Itália! Com três gols do eterno carrasco Paolo Rossi, os italianos venceram os brasileiros por 3 a 2 na “Tragédia do Sarriá” e seguiram caminho rumo ao seu tricampeonato.

A União Soviética ficou em segundo 6. Após a derrota para o Brasil, venceu a Nova Zelândia (3 x 0) e empatou com a Escócia (2 x 2). No Grupo A da fase seguinte, venceu a Bélgica por 1 a 0 e empatou sem gols com a Polônia. Ficou fora das semifinais apenas no saldo de gols, pois a Polônia havia vencido a Bélgica por 3 a 0.


Gol de empate do Brasil, marcado por Sócrates (Imagem: Marco Sousa / Fox Sports)

FICHA TÉCNICA:

 

BRASIL 2 x 1 UNIÃO SOVIÉTICA

 

Data: 14/06/1982

Horário: 21h00 locais

Estádio: Ramón Sánchez Pizjuán

Público: 68.000

Cidade: Sevilha (Espanha)

Árbitro: Augusto Lamo Castillo (Espanha)

 

BRASIL (4-3-3):

UNIÃO
SOVIÉTICA (4-3-3):

1  Waldir Peres (G)

1  Rinat Dasayev (G)

2  Leandro

2  Tengiz Sulakvelidze

3  Oscar

3  Aleksandr Chivadze (C)

4  Luizinho

5  Sergei Baltacha

6  Júnior

6  Anatoliy Dem’yanenko

15 Falcão

12 Andriy Bal

8  Sócrates (C)

8  Vladimir Bessonov

10 Zico

13 Vitaly Daraselia

21 Dirceu

9  Yuri Gavrilov

9  Serginho Chulapa

7  Ramaz Shengelia

11 Éder

11 Oleg Blokhin

 

Técnico: Telê Santana

Técnico: Konstantin Beskov

 

SUPLENTES:

 

 

12 Paulo Sérgio (G)

22 V’yacheslav Chanov (G)

22 Carlos (G)

21 Viktor Chanov (G)

13 Edevaldo

4  Vagiz Khidiyatullin

14 Juninho Fonseca

14 Sergey Borovskiy

16 Edinho

20 Oleg Romantsev

17 Pedrinho Vicençote

18 Yuri Susloparov

5  Toninho Cerezo

17 Leonid Buryak

18 Batista

10 Khoren Oganesian

7  Paulo Isidoro

19 Vadim Yevtushenko

19 Renato Pé Murcho

16 Sergey Rodionov

20 Roberto Dinamite

15 Sergey Andreyev

 

GOLS:

34′ Andriy Bal‘ (URSS)

75′ Sócrates (BRA)

88′ Éder (BRA)

 

SUBSTITUIÇÕES:

INTERVALO Dirceu (BRA) ↓

Paulo Isidoro (BRA)

 

74′ Yuri Gavrilov (URSS) ↓

Yuri Susloparov (URSS)

 

89′ Ramaz Shengelia (URSS) ↓

Sergey Andreyev (URSS)

Gols e lances polêmicos do jogo:

Melhores momentos da partida (em português):

Gol marcado por Sócrates:

Gol marcado por Éder:

… Polônia e a breve história de sua seleção de futebol

Três pontos sobre…
… Polônia e a breve história de sua seleção de futebol

(Imagem localizada no Google)

A seleção polonesa fez sua primeira partida oficial em 18/12/1921, perdendo por 1 x 0 em um amistoso com a Hungria, em Budapeste. Estreou em Copas do Mundo em 1938, caindo logo na estreia, mas vendendo muito caro uma derrota para o Brasil por 6 x 5 na prorrogação, com incríveis quatro gols de Ernest Wilimowski (apelidado de Ezi).

Pouco depois, a Polônia foi o país que mais sofreu com a Segunda Guerra Mundial e passou a se esconder atrás da cortina de ferro do bloco soviético. Devido ao regime comunista, o futebol não se profissionalizou e todos os jogadores eram considerados simples amadores. Mas isso não foi algo ruim, muito pelo contrário. Apenas amadores podiam participar dos Jogos Olímpicos e os comunistas podiam envias suas equipes completas, encobertas pelo amadorismo de fachada.

E é nesse momento que entra essa geração que colocou a Polônia de vez no mapa futebolístico e começou a fazer história. Nos Jogos Olímpicos de 1972, os poloneses conquistaram a medalha de ouro, derrotando a Hungria na final por 2 a 1, com dois gols de Deyna. Em toda a competição, foram 21 gols marcados em 7 jogos (média de três gols por partida).

Na Copa de 1974, na mesma Alemanha onde foi campeã olímpica, a Polônia chegou forte, mas desfalcada de seu maior craque, o centro-avante Włodzimierz Lubański, que foi o grande líder e destaque em 1972. Lubański atuou pela seleção entre 1963 e 1980, com 75 partidas e 48 gols (ainda é o maior artilheiro histórico). Ele se lesionou em 06/06/1973, contra a Inglaterra, nas eliminatórias para a Copa do Mundo. Teve uma lesão no ligamento cruzado que o tirou dos gramados por dois anos, inclusive do Mundial.


Włodzimierz Lubański
(Imagem: glamrap.pl)

Com a ausência de Lubański, foi necessário que outro craque chamasse o protagonismo para si. O careca ponta direita Grzegorz Lato (aniversariante de hoje, 08/04) tinha uma velocidade absurda, correndo 100 metros em incríveis 10,8 segundos. Lato não brilhou em um só verão (“Lato” significa “verão” em polonês). Ele foi o artilheiro da Copa de 1974, marcando sete gols, inclusive no 1 x 0 contra o Brasil, que valeu o 3º lugar do torneio à Polônia.

Mesmo não sendo uma equipe desconhecida, não estava entre as consideradas favoritas, principalmente devido ao fato de ser comunista e frequentar pouco o noticiário estrangeiro. Isso deu ainda mais tranquilidade ao técnico Kazimierz Górski. Ele sabia tirar o melhor de cada um de seus comandados, principalmente de Lato. Era uma seleção jovem, com muita disciplina tática, jogadores velozes e time entrosado, com um futebol rápido e envolvente, uma defesa segura e o talento de Deyna no meio campo, além de Lato e Gadocha nas pontas.


Grzegorz Lato
(Imagem localizada no Google)

O show começou nas eliminatórias, quando eliminou a forte Inglaterra (campeã oito anos antes), com uma vitória por 2 x 0 em casa e um empate por 1 x 1 em pleno Wembley, com Jan Tomaszewski fechando o gol.

Já na Copa, mesmo em um grupo difícil, a Polônia venceu os três jogos (3 x 2 na Argentina, 7 x 0 no Haiti e 2 x 1 na Itália), se classificando em primeiro lugar. A partir daquele instante, quem ainda duvidava do poder de fogo dos poloneses passou a rever seus conceitos.

Na segunda fase, as oito seleções classificadas foram divididas em dois grupos de quatro, com a primeira colocada garantindo vaga na final e a segunda na decisão do 3º lugar. Nos dois primeiros jogos, duas vitórias (1 x 0 na Suécia e 2 x 1 na Iugoslávia). A terceira e decisiva partida foi contra a anfitriã, Alemanha Ocidental, que também tinha vencido os dois jogos, mas jogava pelo empate por possuir maior saldo de gols (4, contra 2 dos poloneses). Assim, o jogo foi na prática uma semifinal direta, valendo vaga na decisão.

Durante todo o dia caiu uma chuva torrencial na cidade de Frankfurt, o que certamente prejudicava o futebol rápido da Polônia e favorecia a força física, principal arma da Alemanha Ocidental. Mesmo com o técnico Kazimierz Górski pedindo o adiamento da partida, ela aconteceu. E com um gol de Gerd Müller aos 31 minutos do segundo tempo, os alemães venceram por 1 x 0. Fim do sonho polonês e festa para os donos da casa.

Restou à Polônia disputar a decisão do 3º lugar contra o Brasil, que perdeu para a Holanda de Johan Cruijff (e do futebol total) no outro grupo. Em Munique, a 15 minutos do fim, Marinho Chagas errou o passe, Lato foi lançado em suas costas e arrancou sozinho para o gol. Mesmo sem ter o gosto de jogar a final, os poloneses comemoraram bastante a sólida campanha, terminando a competição em terceiro, com 6 vitórias e apenas 1 derrota. A partir desse momento, a Polônia passou a ser uma equipe respeitada e temida no mundo da bola.

Com o mesmo time base, nas Olimpíadas de 1976, em Montreal, a Polônia novamente foi finalista, mas ficou com a medalha de prata ao ser derrotada por 3 x 1 pela Alemanha Oriental.

Na Copa de 1978, a estrutura era basicamente a mesma, com o acréscimo do craque Włodzimierz Lubański, que já estava com 31 anos e em não tão boa forma quanto estaria quatro anos antes. Mas nesse torneio surgiu o jovem Zbigniew Boniek, com apenas 22 anos. Novamente a equipe foi comendo pelas beiradas e chegou em 5º lugar. Essa Copa marcou a despedida da maioria dos jogadores da era dourada. Do time de 1974, somente Andrzej Szarmach, Grzegorz Lato e Władysław Żmuda disputariam a Copa de 1982.

Na Copa da Espanha, um dos grandes destaques era Boniek. Ele era um jogador completo, atuando na ala esquerda, no meio, como ponta ou no ataque. Um jogador genial. Com ele, Lato e o novato Włodzimierz Smolarek juntos, a Polônia era cada vez mais temida. Classificou-se em primeiro lugar com dois empates e uma vitória. Na segunda fase, eliminou as fortes União Soviética e Bélgica. Caiu novamente de pé na semifinal em derrota por 2 x 0 para a futura campeã Itália, em partida que Boniek não disputou por estar suspenso pelo segundo cartão amarelo. Na decisão do 3º lugar, nova vitória, por 3 x 2 sobre a França de Michel Platini.


Zbigniew Boniek
(Imagem: Łączy-nas-piłka)

Em 1986, a Polônia disputou sua quarta Copa consecutiva, mas já não tinha a força de antes. Boniek ainda era o craque do time. Żmuda era o único remanescente de 1974, sendo também quem mais vestiu a camisa da Polônia em Copas do Mundo, com 21 partidas, entre 1974, 1978, 1982 e 1986. Mesmo assim, os poloneses passaram da primeira fase como um dos melhores 3º colocados, ao empatarem com o Marrocos, vencerem Portugal e perderem para a Inglaterra. Mas o sonho foi interrompido nas oitavas de final, ao serem impiedosamente goleados pela Seleção Brasileira por 4 x 0. Esse massacre foi um atestado de que os melhores dias já haviam passado para o futebol polonês.

Houve a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1992, mas nenhum medalhista de prata se destacou posteriormente. Se classificou para a Copa de 2002, mas graças a um nigeriano naturalizado: Emmanuel Olisadebe. Com duas derrotas e uma vitória, pela primeira vez foram eliminados na fase de grupos, com sua pior campanha da história das Copas. Conseguiu também se qualificar para a Copa de 2006, mas também ficou na primeira fase, de novo com duas derrotas e uma vitória na última rodada.

Disputou pela primeira vez a Eurocopa, em 2008, ficando em último lugar no grupo. Foram duas derrotas e um empate, com um único gol marcado pelo brasileiro naturalizado Roger Guerreiro, lateral ex-Corinthians. Na Euro 2012, em casa, nova decepção, sendo logo eliminada com uma derrota e dois empates.

Já na Euro 2016, liderada por Robert Lewandowski, enfim a Polônia fez uma campanha digna. Na fase de grupos, venceu a Irlanda do Norte e a Ucrânia, segurando um empate sem gols com a Alemanha. Nas oitavas de final, empate com a Suíça em 1 a 1 e vitória por 5 a 4 nos pênaltis. Nas quartas de final, novo empate por 1 a 1, mas dessa vez foi derrotada na decisão das penalidades por 5 a 3 para Portugal, futuro campeão. No fim, o 7º lugar geral dentre as 24 seleções foi uma boa campanha, o que melhora as perspectivas para as próximas competições.


Robert Lewandowski
(Imagem: Kicker)

… Maradona: lenda na seleção Argentina

Três pontos sobre…
… Maradona: lenda na seleção Argentina


(Imagem: Pinterest)

● Em 27/02/1977, com apenas 16 anos, Maradona estreou pela seleção argentina principal em um amistoso com a Hungria. Apenas alguns dias depois, em 03/04, estreou na seleção sub-17 no Sul-Americano, onde não teve bons resultados. Foi pré-convocado para a Copa de 1978, mas mesmo com clamor do público e da mídia, o técnico César Luis Menotti decidiu não convocá-lo para a Copa na própria Argentina. O técnico explicaria: “Ele ainda é um garoto e precisa amadurecer. Mas sem dúvida ele pode mais que os outros e ainda vai brilhar muito no futebol”. Diego não guarda mágoas de Menotti e o considera o melhor treinador que já teve. O ex-craque Omar Sívori também o consolou: “Me escute, garoto… você tem a verdade do futebol dentro de si e toda uma vida para mostrá-la”. Mesmo decepcionado, Diego enviaria um telegrama aos jogadores, desejando sorte, e assistiu in loco dois jogos (contra a Itália e a final contra a Holanda).

“Poderia ter jogado no mundial de 1978. Estava afinado como nunca. Chorei muito, senti como uma injustiça. (…) Quando se deu a notícia [de que seria cortado] vieram alguns a me consolar: Luque, um grande tipo, o Tolo Gallego… e ninguém mais. Nesse momento eram demasiado grandes para gastar uma palavra com um garoto. (…) O pior foi quando voltei a minha casa. Parecia um velório. Chorava minha velha, meu velho, meus irmãos… esse dia, o mais triste da minha carreira, jurei que iria ter revanche. Foi a maior desilusão da minha vida, me marcou para sempre.”

No ano seguinte, foi o protagonista de sua seleção no título Mundial Sub-20 de 1979, marcando 6 gols e sento escolhido o melhor jogador do torneio. Disputou sua primeira Copa em 1982, mas a então campeã Argentina caiu na segunda fase, com derrotas para Itália (1 x 2, caçado impiedosamente por Claudio Gentile – que de gentil só tinha o nome) e Brasil (1 x 3, onde foi expulso por dar uma solada nos testículos do volante Batista, pensando ser em Falcão).

● Na Copa de 1986, o técnico Bilardo era questionado por dar a faixa de capitão a Diego, já que ele ainda não tinha provado seu valor no futebol nem em clubes e nem na seleção. Maradona “mandava” tanto na seleção, que o ídolo argentino Daniel Passarella não jogou um segundo sequer nessa Copa (era desafeto de Diego). Nas quartas de final, mostrou a todos a sua verdadeira grandeza. Argentina e Inglaterra tinham se enfrentado recentemente na Guerra das Malvinas, com derrota platina. No sexto minuto do segundo tempo, “El Diez” tocou para um companheiro, que perdeu a bola, mas o zagueiro inglês Steve Hodge chutou a bola para cima e ela foi em direção ao goleiro Peter Shilton. Maradona foi correndo de encontro ao goleiro (20 cm mais alto), cerrou o punho e socou a bola, encobrindo Shilton. Mesmo com protestos ingleses, o gol foi validado. Maradona mais tarde diria que “se houve mão na bola, foi a mão de Deus”. Com os adversários ainda revoltados com esse gol, a Argentina trocava passes no campo defensivo quando “El Pibe” pegou a bola. Ele estava de costas para o gol inglês e era marcado por três adversários (Steve Hodge, Peter Reid e Peter Beardsley). Assim que Beardsley se aproximou, Diego girou em sentido contrário, saindo de seu campo e avançando na intermediária adversária. Reid o perseguiu sem sucesso, enquanto Terry Butcher e Terry Fenwick foram facilmente deixados para trás. Diego seguiu (com a impressão que driblava todos os milhões de britânicos e vencia a Guerra das Malvinas), entrou na área, driblou o goleiro Shilton e mandou para as redes, sem chances para o carrinho desesperado de Butcher. Esse é chamado de “gol do século” e possivelmente é o gol mais lindo da história das Copas. Gary Lineker descontou, mas a Argentina venceu por 2 x 1. Na final contra a Alemanha Ocidental, liderou seu país ao segundo título mundial. Logicamente, foi escolhido como Bola de Ouro da Copa.

Na Copa de 1990, Diego já tinha seu talento mundialmente reconhecido, pois já tinha dado títulos inéditos para o Napoli e tinha carregado sua seleção na Copa anterior. Após uma primeira fase desastrosa, a Argentina enfrentou o rival Brasil nas oitavas de final. A equipe brasileira fez seu melhor jogo, mas desperdiçou inúmeras oportunidades. Maradona apenas caminhava na partida, devido às inúmeras pancadas recebidas em jogos anteriores. Mas nunca pode se descuidar com um gênio. Aos 35 minutos do segundo tempo, ele acelerou uma jogada, driblou quatro brasileiros e deixou Caniggia livre, para passar por Taffarel e fazer o gol. Venceria a Iugoslávia nos pênaltis. Na semifinal, enfrentaria os anfitriões italianos, mas jogaria em sua casa, Nápoles. Diego convocou os napolitanos a torcer por ele e não por seu país e a torcida ficou dividida. A Argentina venceu a Itália nos pênaltis, novamente com um show de defesas do goleiro Sergio Goycoechea. Na final, novamente contra a Alemanha Ocidental, em Roma, Diego foi vaiado do início ao fim do jogo. A Argentina já era mais fraca que a Copa anterior e esteve desfalcada de quatro titulares nessa final. Ainda perderia um jogador expulso no início do segundo tempo. A cinco minutos do fim, a Alemanha marca em um pênalti duvidoso e é campeã. Diego se recusa a apertar a mão do presidente da FIFA, João Havelange, e a torcida romana faz festa ao ver Maradona chorando.
Em 1994, surpreendeu ao mundo com a rápida recuperação de sua forma física. Fez um golaço na estreia contra a Grécia e demonstrou um fôlego incansável na segunda partida, contra a Nigéria, mas depois foi pego no exame antidoping e provado que utilizou efedrina para emagrecer. Mesmo aposentado, houve certa pressão para que o agora técnico Daniel Passarella o convocasse para a Copa do Mundo de 1998.

● Em outubro de 2008, após a demissão de Alfio Basile, Diego Armando Maradona foi nomeado técnico da seleção argentina. No período, teve desentendimentos com vários atletas, mas em especial com Juan Román Riquelme. Em 2009 sofreu uma acachapante e histórica derrota para a Bolvívia, na altitude de La Paz, por 6 a 1. Também perdeu para o Brasil em casa, por 3 x 1. Em menos de 20 jogos, ele utilizou 80 jogadores diferentes. Em 14/10/2009, se classificou para a Copa do Mundo de 2010 no sufoco, apenas na última rodada, em uma vitória por 1 a 0 contra o rival Uruguai, em pleno Estádio Centenário. A entrevista após o jogo foi mais uma polêmica para a sua biografia com a declaração: “Com o perdão das damas aqui presentes, que vocês (jornalistas) ’chupem’, continuem ’chupando’”. Pela atitude, foi punido pela FIFA com dois meses de suspensão e uma multa de 25 mil francos suíços. Não convocou para a Copa, dentre outros craques, Javier Zanetti e Esteban Cambiasso, que tinham acabado de conquistar a tríplice coroa na Itália. Na Copa, após uma primeira fase tranquila, venceu bem o México e foi eliminado nas quartas de final para a Alemanha, em uma goleada acachapante por 0 x 4. Felizmente, o resultado poupou a todos de ver o ex-jogador cumprir a promessa de correr pelado caso seu time vencesse a Copa. Foi demitido do cargo depois de 24 partidas, com 18 vitórias e 6 derrotas.