Um Diamante Preso e o Derrame das Certidões Militares Falsas

Um Diamante Preso e o Derrame das Certidões Militares Falsas
Por José Renato Sátiro Santiago

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Nascido no bairro de São Cristovão no Rio de Janeiro em 6 de setembro de 1913, Leonidas da Silva era filho de Manoel Nunes da Silva e Maria da Silva. Desde muito cedo o futebol se tornou a principal paixão do menino, que diante a impossibilidade de ter uma bola de couro, costumava roubar as meias da irmã, Aristotelina, para usa-las como bola e jogar pela casa. Por possuir certa aversão aos estudos e ter o costume de fugir das aulas, não era raro que levasse muitas palmadas de sua mãe. Os tempos eram difíceis para a família Silva e se tornou quase insustentável, com a morte de seu pai, Manoel. Graças a Mário Pinto de Sá, despachante de uma loja de cristais finos que criara sua mãe, Maria, desde pequena, e em cuja casa ela prestava serviços como arrumadeira e cozinheira, a família pode sobreviver dignamente. Na verdade, Leonidas e a irmã passaram a ter Mário, como pai de criação. Em 1926, ao se aposentar, Mário resolveu partir para novas atividades e arrendou o bar localizado na sede do São Cristovão Futebol Clube. Esta proximidade com o futebol acabou contribuindo muito para que Leonidas concretizasse o seu sonho de se tornar jogador de futebol, ainda que a contragosto de “Seo” Mário, que queria vê-lo médico, e de sua mãe, que sonhava em ter um filho advogado. Em 19 de outubro de 1927, com apenas 14 anos, começou a trabalhar como ajudante geral na Light, cujas oficinas se localizavam na frente da casa onde morava. A morte da irmã, com apenas 18 anos foi mais um doloroso golpe sofrido pela família.

Naquele tempo, os habitantes da cidade do Rio de Janeiro costumavam formar equipes, nas ruas onde moravam que se enfrentavam em partidas muito disputadas. Foi desta forma que o futebol de Leonidas passou a encantar a muitos aficionados pelo esporte, entre eles, um dirigente do Sírio e Libanês, clube da pequena colônia síria, com sede no bairro da Tijuca, e que participava do campeonato carioca de futebol. Leonidas ainda não tinha 17 anos quando estreou em 1930, no terceiro quadro da equipe. Seu começo foi fulminante e embora o futebol ainda fosse considerado amador naquela época, passou a receber uma ajuda de custo para jogar. O emprego da Light foi deixado para trás. Com o fechamento do clube da Tijuca, foi contratado pelo Bonsucesso, equipe pelo qual atuou no campeonato carioca e que defendia quando foi convocado pela primeira vez para atuar pela seleção brasileira, em partida realizada em 27 de novembro de 1932 frente a equipe do Andarahy. Considerado a maior revelação do futebol brasileiro em 1932, logo passou a ser titular da seleção brasileira, sendo contratado pelo Peñarol do Uruguai e a seguir pelo Vasco da Gama, onde conquistaria o titulo estadual de 1934. Convocado para a Copa do Mundo daquele ano, na Itália, foi dele a autoria do gol brasileiro, na derrota por 3 a 1 frente à seleção espanhola, na única partida do Brasil, em 27 de maio. Ao retornar ao país, Leonidas tinha 21 anos de idade e já tinha o status de ser o melhor jogador brasileiro em atividade. Confirmou sua fama ao ser campeão e artilheiro do campeonato carioca de 1935, atuando pelo Botafogo. Juntamente com os amigos Zezé Moreira, também atleta, e Antonio Lins, repórter do Diários Associados, Leonidas era um assíduo frequentador do famoso Café Nice, na Avenida Rio Branco. Ainda que estivesse vivendo um grande momento no futebol, achava que apenas um emprego público poderia servir de garantia para o seu futuro e para consegui-lo, precisava providenciar o seu certificado militar. Naquela época, aos 18 anos, os homens se apresentavam ao Centro de Recrutamento e esperavam pela convocação ou dispensa militar. Leonidas e seus amigos acabaram conhecendo o Sargento Condoru, que se prontificou a ajudá-los com certas facilidades nos trâmites legais. O caso de Leonidas era ainda mais critico pelo fato dele ser arrimo de família. Após apresentar alguns documentos, duas fotografias e assinar um requerimento, Leonidas ainda gratificou o militar com 500 mil réis por um certificado de primeira categoria, entregue aqueles que estão habilitados a desempenhar funções nas Forças Armadas. A carreira no futebol acabou mostrando um futuro sólido para Leonidas e o sonho do emprego público logo foi deixado de lado. Contratado pelo Flamengo em 1936 e artilheiro da Copa do Mundo de 1938, com 7 gols, na espetacular campanha da seleção brasileira que alcançou uma honrosa terceira colocação, passou a ser chamado de “homem de borracha”, por sua grande habilidade com a bola nos pés, e por “Diamante Negro”, apelido pelo qual passou a ser conhecido mundialmente no futebol. Campeão Carioca pela equipe rubro negra em 1939 e brasileiro pela seleção do Distrito Federal, o Rio de Janeiro em 1940, ao mesmo tempo em que era idolatrado pela torcida, vivia situações conflituosas com dirigentes da equipe carioca.

Nada, no entanto, tão relevante na sua vida, quando, nos primeiros meses de 1941, Leonidas foi chamado para depor em inquérito instaurado no Centro de Recrutamento Militar por conta de um escândalo relacionado a um derrame de falsos certificados militares. Orientado a se alistar novamente e requerer um certificado de terceira categoria, o de dispensa militar, indicado por ser arrimo de família, Leonidas e seus amigos foram acusados de conivência com o crime do Sargento Condoru e condenados a oito meses de prisão, em pena a ser cumprida no I Regimento da Vila Militar do Rio de Janeiro. O país viveu momentos de grande apreensão ao ver seu principal jogador de futebol, preso. Para Leonidas, no entanto, o período na prisão não foi tão ruim, afinal, por conta da sua fama era tratado como um hospede, com privilégios bancados pelos oficiais que admiravam seu futebol. Além disso, conseguira autorização do comandante para tratar adequadamente do joelho, que o fizera sofrer tanto no último ano. Em 24 de março de 1942, os oficiais da Vila Militar ofereceram um almoço de despedida para comemorar a sua liberdade. Os problemas com os dirigentes do Flamengo, no entanto, não foram esquecidos e na tarde do dia 10 de abril de 1942, quase 10 mil pessoas se espremiam na Estação do Norte, no bairro do Brás, para receber o novo reforço do São Paulo Futebol Clube, onde Leonidas se tornaria um dos principais nomes da história do clube, sendo campeão estadual em 1943, 1945, 1946, 1948 e 1949.


Sobre o autor:
José Renato Sátiro Santiago Júnior é autor do livro “Almanaque do São Paulo – 90 anos de glórias” – que pode ser comprado diretamente na página: https://www.facebook.com/almanaquedosaopaulo/. É consultor e Professor, atua e escreve sobre temas relacionados a Gestão do Conhecimento, Inovação, Pessoas, Projetos e Lições Aprendidas. Veja mais textos dele no link: https://jrsantiagojr.medium.com/

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